quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Poesia

Muitos são aqueles que dizem não gostar de Poesia. Isto, talvez, porque nunca tenham dedicado um pouco do seu tempo a ler Poesia. É preciso ler muito e reler. A Poesia aprende-se a gostar.
Aqui deixo uma pequena selecção de poemas, autênticas jóias, que poderão ajudar alguns a olharem a Poesia com outros olhos.
Escolhi estes, mas poderia ter escolhido centenas e centenas de outros magníficos poemas. Atente-se logo no primeiro poema e veja-se a mestria e originalidade do segundo. O terceiro e quarto poemas com a mesma temática, mas de diferentes poetas, preenchem-nos na totalidade. “A Débil” (magnifico poema de um Cesário “maduro) acolita a “liberdade” de uma grande poetisa, de aparência frágil.

José Amaral

AMIGO

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O’Neill

A ESTOUVACA

deitada atravessada
na estrada
a malhada
vai ser atropelada
foi

Alexandre O'Neill

HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM
Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca.
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.
 
Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto;
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.
 
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas inesperadas
Como a poesia ou o amor.
 
(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído
No papel abandonado)
 
Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
 
Alexandre O'Neill
 
AS PALAVRAS
 São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
 
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
 
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
 
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade

A DÉBIL

Eu, que sou feio, sólido, leal,
A ti, que és bela, frágil, assustada,
Quero estimar-te, sempre, recatada
Numa existência honesta, de cristal.

Sentado à mesa dum café devasso,
Ao avistar-te, há pouco, fraca e loura,
Nesta Babel tão velha e corruptora,
Tive tenções de oferecer-te o braço.

E, quando socorreste um miserável,
Eu, que bebia cálices d’absinto,
Mandei ir a garrafa, porque sinto
Que me tornas prestante, bom, saudável.

"Ela aí vem!" disse eu para os demais;
E pus-me a olhar, vexado e suspirando,
O teu corpo que pulsa, alegre e brando,
Na frescura dos linhos matinais,

Via-te pela porta envidraçada;
E invejava, – talvez que não o suspeites! -
Esse vestido simples, sem enfeites,
Nessa cintura tenra, imaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarca.
Triste eu saí. Doía-me a cabeça,
Uma turba ruidosa, negra, espessa,
Voltava das exéquias dum monarca.

Adorável! Tu muito natural
Seguias a pensar no teu bordado;
Avultava, num largo arborizado,
Uma estátua de rei num pedestal.

Sorriam nos seus trens os titulares;
E ao claro sol, guardava-te, no entanto,
A tua boa mãe, que te ama tanto,
Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito
A limpidez do teu semblante grego;
E uma família, um ninho de sossego,
Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegância e sem ostentação,
Atravessavas branca, esvelta e fina,
Uma chusma de padres de batina,
E d’altos funcionários da nação.

"Mas se a atropela o povo turbulento!
Se fosse, por acaso, ali pisada!"
De repente, paraste embaraçada
Ao pé dum numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes fáceis esbocetos,
Julguei ver, com a vista de poeta,
Uma pombinha tímida e quieta
Num bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu, homem varonil,
Quis dedicar-te a minha pobre vida,
A ti, que és ténue, dócil, recolhida,
Eu, que sou hábil, prático, viril.

 
Cesário Verde

LIBERDADE

Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.

Sophia de Mello Breyner Andresen

5 comentários:

inconformist disse...

Bela poesia a de O`Neill, Eugénio de Andrade e de Sophia...sobretudo: "As palavras" e "Liberdade",está lá tudo sobre grandes valores da essência humana e como professora que sou e neste momento de crise que se está a verificar no ensino ainda mais sentido fazem estas belas palavras

Amaral disse...

Folgo em saber que és professora, eu também (ver meu perfil). Sem dúvida que a educação está muito pouco livre neste momento, está mais "salarizada", mas temos de continuar a lutar senão...

irene costa disse...

eu li e gostei.
já lá vai o tempo em que tambem pensa para o papel, agora há muito que não o faço. talvez por falta de fé na vida. a esperança é cada vez menos.
já que falou no ensino, e como é professor talvez me possa dizer como é que posso ajudar o meu filho de 7anos, que frequenta o segundo ano do 1º ciclo, a ler... passou um ano(primeiro), e agora a vontade não é nenhuma. não sei o que fazer....
cumprimentos.

Amaral disse...

Irene
não seja tão pessimista. A vida já de si é madrasta, não podemos viver sempre carregados de "luto" (passe a comparação).
Ponha primeiro um sorriso, erga a cabeça, respire fundo e vamos lá...
Ânimo!
Quanto ao seu filho penso não ser ainda problemático o facto de não ter vontade, mas não se pode facilitar. Já é muito bom querer ajudá-lo. As crianças, muitas vezes, seguem-se por exemplos e por estímulos. É preciso ver que os pais e outras pessoas que as rodeiam lêm e gostam. assim, procure ler com ele; pequenas histórias lidas "a dois". Se ele tiver um irmão ou primo... que goste de ler pode ser um outro exemplo.
Como estímulo pode pegar em histórias (e agora há muitas) que estejam no cinema, ver o filme e depois ler o livro; contudo o preferível era começar por ler o livro e apontar-lhe como "prenda" a ida ao cinema ou a compra de um dvd.
Com esforço, acompanhamento e paciência estou em crer que vai conseguir apaixonar o seu filho pela leitura.
Vá consultando o meu blog e diga-me alguma coisa.

Amaral disse...

Irene
se este blog servir (espero que sim) para a ajudar já fico contente.
Parece-me que gosta de ler e em especial poesia (?) não sei se teve oportunidade de consultar o arquivo do blog. Se não o fez faça-o. Vai encontrar vários poemas. Sugiro-lhe os meses de Maio (tem um conto, da minha autoria, que pode servir para ajudar o seu filho a ganhar gosto pela leitura); no mes de Junho tem informações sobre o meu último livro de poesia.