quinta-feira, 12 de outubro de 2006

Bandeira

Bandeira, Manuel (1886-1968)
Sexta-feira 13, pode ser um dia de azar para os mais supersticiosos, mas no que toca à personalidade em causa penso não o ser. No meu ano de estágio tive a oportunidade de estudar o poeta em questão. A sua vida e obra tocaram-me profundamente.
Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho nasceu em Recife, a 19 de Abril de 1886 e faleceu a 13 de Outubro de 1968, com 82 anos no Rio de Janeiro. Foi poeta, escritor, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro.
Quando jovem, abandonou os estudos que fazia para se tornar engenheiro-arquitecto na Escola Politécnica, uma vez que, por sua saúde frágil – tinha tuberculose – os médicos afirmavam que tinha pouco tempo de vida. Passou muitos anos de sua vida em sanatórios para tuberculosos até conseguir a cura. A sua obra ficou marcada por este enfermidade.

Manuel Bandeira possui um estilo simples e directo. Bandeira aborda temáticas quotidianas e universais, às vezes com uma abordagem de "poema-piada", lidando com formas e inspiração que a tradição académica considera vulgares.
Uma certa melancolia, associada a um sentimento de angústia, permeia sua obra, em que procura uma forma de sentir a alegria de viver. Doente dos pulmões, Bandeira sabia dos riscos que corria diariamente, e a perspectiva de deixar de existir a qualquer momento é uma constante na sua obra. Depois de descobrir que, afinal, podia viver mais anos do que aqueles que os médicos lhe davam, dá-se uma reviravolta na sua poesia.
Aqui deixo um poema, que considero belíssimo, de Manuel Bandeira que mostra toda a beleza da sua poesia. Não se acanhe e embarque neste trem de ferro, o nosso comboio.

Trem de ferro
Café com pão
Café com pão
Café com pão
Virge Maria que foi isso maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força
(trem de ferro, trem de ferro)
Oô...

Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
Da ingazeira
Debruçada
No riacho
Que vontade
De cantar!
Oô...
(café com pão é muito bom)

Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficiá
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matar minha sede
Oô...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
Oô...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
(trem de ferro, trem de ferro)

Manuel Bandeira in "Estrela da Manhã" 1936

5 comentários:

Adelaide disse...

É sempre com grande entusiasmo que leio os artigos do teu blog. Gostei muito dos versos do dia do professor! Parabéns!

Amaral disse...

Obrigado. Procurarei sempre manter o interesse dos meus leitores.
Quando passares por cá deixa um comentário e divulga o blog junto de outros clegas/amigos teus.

Paulo V. disse...

Penso que a superstição existe para aqueles que nela acreditam...Por vezes existem coicidências e essas podem alimentar medos maiores! Relativamente ao artigo apreciei com agrado. Um abraço.

Inconformist disse...

Belo poema...faz lembrar que se pode nasçer de novo e que é preciso agarrar a vida com toda a força que pudermos...Manuel Bandeira conquistou-me... não o conhecia e fiquei com curiosidade em ler mais sobre aquilo que ele escreveu..

Amaral disse...

É asim mesmo: pensamento positivo. Quanto a MB descobre-o e vais ver que gostas, não sairás desiludido.
Basta fazeres uma pesquisa na net e já encontras muito sobre este belo poeta.
Apanha o comboio do poeta...