domingo, 6 de Dezembro de 2009


De profundis amamus


Ontem às onze fumaste um cigarro encontrei-te sentado
ficámos para perder todos os teus eléctricos os meus estavam perdidos por natureza própria

Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes
olhar a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não
faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

(Mário Cesariny)
(José Amaral)

segunda-feira, 30 de Novembro de 2009

S.I.D.A. - A.I.D.S.


1 DE DEZEMBRO
DIA MUNDIAL DA LUTA CONTRA A SIDA
(José Amaral)

sábado, 28 de Novembro de 2009

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, a 13 de Junho de 1888 e faleceu na Capital Portuguesa a 30 de Novembro de 1935. Poeta e escritor português.
Durante sua discreta vida, actuou no jornalismo, na publicidade, no comércio e, principalmente, na Literatura.
Fernando Pessoa morreu de cirrose hepática aos 47 anos.






Já não me importo

Já não me importo
Até com o que amo ou creio amar.
Sou um navio que chegou a um porto
E cujo movimento é ali estar.

Nada me resta
Do que quis ou achei.
Cheguei da festa
Como fui para lá ou ainda irei

Indiferente
A quem sou ou suponho que mal sou,

Fito a gente
Que me rodeia e sempre rodeou,

Com um olhar
Que, sem o poder ver,
Sei que é sem ar
De olhar a valer.

E só me não cansa
O que a brisa me traz
De súbita mudança
No que nada me faz.

(Fernando Pessoa)





Oscar Wilde nasceu em Dublin, a 16 de Outubro de 1854 e faleceu em Paris, a 30 de Novembro de 1900. Escritor irlandês foi criado numa família protestante. Sempre teve uma vida social agitada.
Em 1883, vai para Paris e entra para o mundo literário local, o que o leva a abandonar seu movimento estético.



Soneto à Liberdade


Não que eu ame teus filhos cujo olhar obtuso
Somente vê a própria e repugnante dor,
Cuja mente não sabe, ou quer saber, de nada
É que, com seu rugir, tuas Democracias,
Teus reinos de Terror e grandes Anarquias
Reflectem meus afãs extremos como o mar,
Dando-me Liberdade! - à cólera uma irmã.
Minha alma circunspecta gosta de teus gritos
Confusos só por causa disso: do contrário,
Reis com sangrento açoite ou seus canhões traiçoeiros
Roubavam às nações seus sagrados direitos,
Deixando-me impassível e ainda, ainda assim,
Esses Cristos que morrem sobre as barricadas,
Deus sabe que os apoio ao menos parcialmente.

(Oscar Wilde)






(José Amaral)







sexta-feira, 20 de Novembro de 2009


IV


O país vive anestesiado
numa dor imposta
pela lei do “manda quem pode,
obedece quem deve”.

Na gaiola da opressão,
e enquanto o silêncio
do bâton azul do lápis
serve para postergar
a Liberdade de expressão,
a velha ave de rapina
cai da cadeira.

O povo esperançado,
pela queda do velho senhor,
procura na Revolução exorcista
solução para a dita dor.


(José Amaral, in "25 de Abril/34 anos")

domingo, 15 de Novembro de 2009

Eu tolero, tu toleras, ele tolera?...

A Organização da Nações Unidas decretou o dia 16 de Novembro como o DIA INTERNACIONAL DA TOLERÂNCIA.
Existem duas acepções principais da palavra tolerância. Uma é o “respeito e consideração face às práticas dos outros, ainda que sejam diferentes das nossas”. A outra, que revela o seu sentido mais específico, sublinha que “tolerar é permitir algo que não se considera lícito, sem o aprovar expressamente”, ou seja, não impedir, podendo fazê-lo, que outro ou outros pratiquem determinado mal. A tolerância, entendida como respeito e consideração face à diferença, ou como uma disposição para admitir nos outros uma maneira de ser e de agir distinta da nossa, de aceitação de um pluralismo legítimo, é em todos os aspectos um valor de enorme importância. No entanto, a tolerância não é uma atitude de simples neutralidade ou indiferença, mas uma posição resultante de algo, que ganha significado quando se opõe ao seu limite, que é o intolerável.
A condição humana caracterizou-se sempre pela diversidade. No entanto, lamentavelmente, a aceitação dessa diversidade por parte da humanidade tem sido difícil.
Quantas e quantas vezes nos damos conta que estamos, também nós, a ser intolerantes. Nos nossos dias tudo e nada são motivos para nos tornarmos intolerantes.
É preciso lutar contra a intolerância. Só porque os outros pensam de forma diferente de nós, não quer dizer que sejam nossos inimigos. Têm o mesmo direito que nós temos a pensar da forma que acham mais correcta.

(José Amaral)

sábado, 7 de Novembro de 2009

Nunca tinha lido nada de Philip Roth, mas começo a perceber por que é que ele um autor de culto, e que já vem sendo falado, ano após ano, para o Nobel. Pelo menos, deixou-me curioso para procurar novos títulos da sua autoria.
O livro que escolhi, e em boa hora o fiz, para iniciar a leitura de Philip Roth foi Todo-o-Mundo (Dom Quixote, 179 páginas).
Uma escrita cativante que nos prende e que nos deixa agarrados ao livro, que se lê muito facilmente.
Este livro é-nos apresentado como sendo uma história iniludivelmente íntima, embora universal, de perda, arrependimento e estoicismo. A personagem principal, um criativo de sucesso numa agência publicitária, combate contra a imortalidade. Logo a partir do primeiro e chocante confronto da personagem com a morte, nas praias idílicas dos seus verões de infância. Este homem, divorciado, é pai de dois filhos, de um primeiro casamento, que o desprezam, e de uma filha, de um segundo casamento, que o adora. É o irmão querido de um bom homem, cuja boa forma física virá a despertar nele uma amarga inveja, e é o solitário ex-marido de três mulheres muito diferentes com quem teve casamentos desastrosos.
Como podemos ler na sinopse do livro «O terreno em que se desenrola este romance poderoso – o vigésimo sétimo livro de Roth e o quinto a ser publicado no século XXI – é o corpo humano. O seu tema é a experiência comum que a todos nós aterroriza. Uma história iniludivelmente íntima, embora universal, de perda, arrependimento e estoicismo – o combate de um homem contra a mortalidade».
Um livro que merece uma leitura atenta. Recomendo.

(José Amaral)

sábado, 31 de Outubro de 2009

Genial! Obrigatório!...

Após algum tempo sem apresentar novas sugestões literárias, eis-me de novo a fazê-lo. Desta feita trata-se de uma obra-prima, a não perder. A tarefa pode afigurar-se difícil, mas logo logo se torna numa agradável tarefa. Torna-se numa droga literária, que nos agarra da primeira à última página. E são muitas, as páginas! Mas parecem poucas.
Trata-se de 2666 (Editora Quetzal, 1030 páginas), de Roberto Bolaño.
A crítica é unânime em aclamar Bolaño e é justa essa aclamação. Para José Mário Silva, no “Expresso”, «[o leitor fica] hipnotizado desde as primeiras páginas pela riqueza estilística da prosa de Bolaño, pela invenção e energia pura da sua linguagem. [...] são mais de mil páginas geniais e magnéticas. “2006” [é] o acontecimento literário de 2009.» Francisco José Viegas, no “Público”, disse que «Depois de ter lido Bolaño a nossa vida muda um pouco. Não se pode esquecer que aquilo que ele deixou escrito, e que é uma tempestade, uma torrente, um delírio, como deve ser a literatura.»Já no jornal espanhol, “La Vanguardia” pode ler-se que «2666 está destinado a ser, não só o grande romance em língua castelhana da primeira década no novo século, mas também uma das peças fundamentais de toda a literatura.» Para o “The New Yorker”, «Os temas são a violência, deslocação, a sexualidade da literatura - vertentes interminavelmente recombinadas na Europa, Detroit e México, através de múltiplos narradores e estilos de prosa.»
A crítica abre-nos o apetite para a leitura desta belíssima obra, mas para que esse apetite seja, ainda, mais evidente aqui fica a sinopse desta magnífica obra:
«O que liga quatro germanistas europeus (unidos pela paixão física e pela paixão intelectual pela obra de Benno von Archimboldi) ao repórter afro-americano Oscar Fate, que viaja até ao México para fazer a cobertura de um combate de boxe? O que liga este último a Amalfitano, um professor de filosofia, melancólico e meio louco, que se instala com a filha, Rosa, na cidade fronteiriça de Santa Teresa? O que liga o forasteiro chileno à série de homicídios de contornos macabros que vitimam centenas de mulheres no deserto de Sonora? E o que liga Benno von Archimboldi, o secreto e misterio-so escritor alemão do pós-guerra, a essas mulheres barbaramente violadas e assassinadas? 2666.
Para se ler sem rede, como num sonho em que percorremos um caminho que nos poderá levar a todos os lugares possíveis».
É obrigatório ler este livro! Será um crime não o fazer.

(José Amaral)