sexta-feira, 28 de março de 2008

Sugestão cinéfila

Hoje, numa incursão ao cinema fui ver (com o meu filho) o filme de animação: HORTON E O MUNDO DOS QUEM. É um filme muito bem conseguido com muita musicalidade, com desenhos animados de grande qualidade e com pormenores (visuais e a nível das falas) deliciosos.
Trata-se da história de um elefante com muita imaginação chamado Horton, que consegue ouvir um quase inaudível pedido de ajuda vindo de um grãozinho de pó que flutua pelo ar. Para Horton é certo que naquele grão de pó há vida e apesar da sua comunidade achar que ele perdeu o juízo, ele está determinado em salvar aquela pequena partícula.
Esse grãozinho é um planeta minúsculo, onde há uma cidade chamada "Quem Vila" habitada por seres de tamanho microscópico conhecidos por os "Quem".Os habitantes pedem ajuda ao elefante, que não os consegue ver, embora os consiga ouvir bastante bem, que os proteja do mal.
Embora ridicularizado e maltratado pelos outros animais da selva, por acreditar em algo que eles não conseguem ver nem ouvir, Horton assume essa função. Convicto que «uma pessoa é uma pessoa, independente do tamanho» Horton corre riscos, mas não deixa de acreditar.
No fundo, no fundo trata-se de acreditar nalguma coisa e lutar por ela. Aconselho vivamente este filme!

(José Amaral)

quinta-feira, 27 de março de 2008

Leitura de Pasmar

Há catorze anos atrás li um livro do escritor espanhol Gonzalo Torrente Ballester que me deixou maravilhado. Depois vi o filme, inspirado nesse romance, que também estava muito bem conseguido. Agora, passados estes catorze anos apeteceu-me reler Crónica do Rei Pasmado (186 pág, “Narrativa Actual – RBA”).
É um divertido romance que foi um grande êxito em Espanha. Trata-se de um livro particularmente saboroso, hábil e irónico, narrado com a mestria e a sabedoria de um escritor como Ballester. Numa escrita fluente Ballester relata-nos uma história tão banal (talvez não para a época) como caricata.
O rei nunca tinha visto uma mulher nua, nem sequer a sua: a rainha. Ao ver pela primeira vez uma mulher nua (Marfisa) fica de tal maneira pasmado que lhe cresce o súbito desejo de querer ver nua também a rainha. Numa corte “controlada” uma intriga se tece, metendo nobres, inquisidores, uma afamada meretriz, um jesuíta português…
É partir deste pequeno (e hoje banal) acontecimento que se vai desenrolar a drama deste divertido romance. Não é tanto o problema da armada espanhola ser saqueada, mas é mais importante saber se deve ou não, o rei, ver a mulher nua. Uns dizem que sim, pois é sua mulher; outros que não, pois é contra as leis divina.


(José Amaral)

terça-feira, 25 de março de 2008

Dois Génios

Ludwig van Beethoven nasceu em Bonn - Alemanha, a 16 de Dezembro de 1770 e faleceu em Viena, a 26 de Março de 1827. Este compositor erudito é considerado como um dos pilares da música ocidental.
Beethoven que era
canhoto, nunca teve estudos muito aprofundados, mas sempre revelou um talento excepcional para a música. Compôs as suas primeiras peças aos onze anos.
O infortúnio bate à porta de Beethoven e, por volta de seus 24 anos, sentiu os primeiros indícios de
surdez. Este problema levá-lo-ia a pensar no suicídio. Aos 46 anos estava praticamente surdo. Muitos anos a compor, entre problemas de saúde e familiares, chega a obra-prima de Beethoven: Sinfonia nº 9 em Ré menor Op.125 (“9ª Sinfonia” também conhecida por “Hino da Alegria”) que data de 1824.
Para se ver a popularidade deste compositor basta ver que, segundo se conta, cerca de dez mil pessoas compareceram ao seu funeral.



Walt Whitman nasceu em West Hills, Long Island, a
31 de Maio de 1819 e faleceu a 26 de Março de 1892. Walt Whitman foi um poeta norte-americano, descendente de ingleses e holandeses.
Em
1855 (Julho) publicou a primeira edição de "Leaves of Grass". A primeira edição desta obra – a mais importante da sua carreira - não mencionava o nome do autor, e continha apenas 12 poemas e um prefácio. A obra poética de Whitman centra-se nesta colectânea. Ao longo da sua vida o escritor dedicou-se a rever e completar aquela obra, que teve oito edições (a última datada de 1889) durante a vida do poeta.
Nos seus poemas, Walt Whitman elevou a condição do homem moderno, celebrando a natureza humana e a vida em geral em termos pouco convencionais. Os últimos anos de vida de Whitman foram marcados pela pobreza, atenuada apenas pela ajuda de amigos e admiradores americanos e europeus.
Walt Whitman ficou, ainda, mais conhecido mundialmente a partir das citações inseridas no enredo do filme
Clube dos Poetas Mortos. Quem não se lembra desse maravilhoso filme? Quem não se lembra do professor Keating (Robin Williams) a fazer referências a este poema de Whitman:


O CAPTAIN! MY CAPTAIN!

O Captain! my Captain! our fearful trip is done,
The ship has weather'd every rack, the prize we sought is won,
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring;
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up -- for you the flag is flung -- for you the bugle trills,
For you bouquets and ribbon'd wreaths -- for you the shores a-crowding,
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head!
It is some dream that on the deck,
You've fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still,My father does not feel my arm, he has no pulse nor will,
The ship is anchor'd safe and sound, its voyage closed and done,
From fearful trip the victor ship comes in with object won;
Exult O shores, and ring O bells!
But I with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.


(José Amaral)

segunda-feira, 24 de março de 2008

Leitura

Acabo de ler um pequeno livro (121 pág, editora Campo das Letras) de Miguel Real. O nome é tanto sugestivo quanto enigmático: A Morte de Portugal. Este livro requer uma leitura crítica, cuidada, ponderada e atenta. Uma leitura que nos faça pensar e repensar.
Na contracapa podemos ler: «Na linha de Eduardo Lourenço, este pequeno ensaio diligencia desenhar os quatro complexos culturais por que Portugal se foi concebendo a si próprio ao longo de 800 anos de História: ora um país gerado exemplarmente no mais remoto dos tempos e contra as mais difíceis circunstâncias (Viriato); ora um país que, durante e após os Descobrimentos, se vê a si próprio como nação superior às demais, sintetizada na majestática arquitectónica do Quinto Império de padre António Vieira, Fernando Pessoa e Agostinho da Silva; ora um país que, fracassado o sonho grandiloquente do Império, se lastima e se penitencia, considerando-se nação inferior, passível de máxima humilhação (Marquês de Pombal); ora, finalmente, país mesquinho, venenoso e bárbaro, permanentemente ansioso de purificação ortodoxa, no qual cada corrente política e intelectual tem sobrevivido da canibalização das correntes adversárias, negando-as e humilhando-as. Por efeito do ambiente educacional e social, cada português percorre na sua vida, recorrente e ciclicamente, estas quatro figurações da sua história e da sua cultura».
A Morte de Portugal não significa que desapareça enquanto espaço físico, mas talvez se constate a morte no sentido da perda de toda a originalidade portuguesa substituída (também se lê no livro) “pela vertigem estrangeira por uma «ditadura tecnocrática» instituída por «técnicos medíocres» para quem só conta «primeiro, a contabilidade das estatísticas, e, segundo, o sentido europeu das estatísticas»”. Portugal, como bom aluno, quer igualar-se aos ditames da Europa e não se importa, segundo a leitura do livro, de retirar curtos direitos ganhos pelas populações desde o 25 de Abril.

(José Amaral)

quinta-feira, 20 de março de 2008

BOA PÁSCOA!...


O AD LITTERAM deseja a todos os seus leitores uma Santa Páscoa!

(José Amaral)

Dia Mundial da Poesia

Com o objectivo primeiro de defesa da diversidade linguística, a UNESCO decidiu, em 1999, proclamar o dia 21 de Março Dia Mundial da Poesia.


poeta


“Poeta sou! Cumpro meu fado, estranho
como o dum Santo ou louco
só posso dar de mais ou muito pouco,
que é tudo quanto tenho”
(José Régio)



A pena traz-me
à memória
a hagiografia escrita louca,
que dei ao mundo
cumprindo meu fado
dos loucos Santos
e eu, em perdidos prantos,
encontro no mais fundo
de mim
uma resposta breve
para dar,
de mais ou muito pouco
dando-me a conhecer
ao mundo
como um Santo
...louco!





(in Oráculo Luminar, José Amaral)

Dia Mundial da Árvore

A 21 de Março comemora-se o Dia Mundial da Árvore. Parece que esta comemoração teve lugar, pela primeira vez, no Nebraska. O principal objectivo era plantar árvores para resolver a escassez de material lenhoso.
Em 1971 e na sequência de uma proposta da Confederação Europeia de Agricultores foi estabelecido este dia, com o objectivo de sensibilizar as populações para a importância da floresta na manutenção da vida na Terra.

Jacarandá

A Eugénio de Andrade
(MMV – VI – XVI)



Agora, na celeste atalaia,
à sombra azul
do teu jacarandá,
recitas os teus poemas
aos querubins.

Agora, que bebericas
o chá celestial
fica a música
que mais gostavas
de ouvir:
o correr da água!

Agora, o rio,
teu leito de morte,
corre para o mar
parecendo
ir à tua procura.

Agora,
desde a tua Póvoa
ao Parnaso da Atalaia,
e depois do derradeiro
mio do teu gato,
fez-se silêncio!


(in Outonalidades, José Amaral)

terça-feira, 18 de março de 2008

DIA DO PAI

O Dia do Pai teve origem, há mais de 4 mil anos, na antiga Babilónia. Um jovem chamado Elmesu moldou e esculpiu em argila o primeiro cartão. Desejava sorte, saúde e longa vida a seu pai. A tradição renovou-se, mais recentemente em 1909 nos EUA.
Em
Portugal comemora-se o Dia do Pai a 19 de Março, data em que se celebra também São José, o pai de Jesus.
José foi designado por Deus para se casar com
Maria, a mãe de Jesus, que era uma das consagradas do Templo de Jerusalém. Moravam em Nazaré, numa localidade da Galileia. Segundo a Bíblia, José era carpinteiro de profissão, ofício que teria ensinado seu filho.

Aqui presto homenagem ao meu e a todos os pais deste mundo.


PAI


No esplendoroso momento
do meu silencioso nascimento
vagidos de dor
esculpem-me em tua face,
meu progenitor

Em tuas nodosas mãos
acolheste-me, qual pepita dourada,
e com tuas lágrimas baptismais
minha natividade tornaste abençoada.

O meu primeiro choro/gemido
não passa de um imberbe ai
embora eu, convencido, o achasse
um indecifrável “père”, “father” ou PAI.

Teus olhos luzem comPAIxão!

Por isso, e só por isso,
fiquei logo com a sensação
que, olhando-me assim embevecido,
eu seria a tua grande PAIxão.



(in “Revista Escolar”, José Amaral)

sábado, 15 de março de 2008

Poema Labiríntico

certezas


Encaminho-me para uma casa
da qual não sei
em que rua fica
nem tampouco
o número da porta.
Sei que fica ali,
talvez além;
não será antes acolá?

Assim é!!!
Também a minha vida
se encaminha
não sei para
que direcção.
Só sei que segue
o rumo que escolhi
ou o destino por mim.

Este labirinto
traz-me perdido
de incertezas,
poisque
quando não temos certezas
a única certeza que temos
é que não temos...
certezas.


in Oráculo Luminar, José Amaral

quarta-feira, 12 de março de 2008

Giórgos Seféris nasceu em Esmirna, a 13 de Março de 1900 e faleceu em Atenas, a 20 de Setembro de 1971. Este escritor grego ganhou o Prémio Nobel de Literatura em 1963.
Confesso não conhecer o autor, nem a sua obra, mas numa pesquisa na Internet encontrei este poema da sua autoria e que muito me agradou.
Aqui o partilho:


Última Estação

Poucas foram as noites de luar de que gostei.
O a-bê-cê dos astros que se soletrata
como o traz o penar do dia que se fina,
dele se tirando novos sentidos e novas esperanças,
mais claramente pode ler-se.
Agora que aqui estou desocupado a meditar,
poucas luas me ficaram na memória;
as ilhas, a dorida cor da Virgem, o lento declinar
do luar nas cidades do norte, que por vezes lança
nas ruas agitadas, nos rios, nos membros dos homens,
um pesado torpor.
No entanto, ontem à noite, neste nosso último cais
onde aguardamos que amanheça a hora do regresso
como uma antiga dívida, uma moeda que ficasse durante anos
no cofre dum avarento, e por fim
chegasse o momento de pagar e se ouvissem
os cobres a tilintar na mesa,
nesta aldeia tirrena, por detrás do mar de Salerno
por detrás dos portos do regresso, no fim
duma borrasca de Outono, a Lua furou as nuvens
e as casas na encosta da outra margem fizeram-se esmalte.
Silêncios que a lua ama.

Giórgos Seferis,
(tradução Manuel Resende)
(José Amaral)

domingo, 9 de março de 2008

Não será, já, tempo?

O tema do momento é a problemática em torno da Educação. A Marcha da Indignação de ontem encheu as ruas com professores em protesto. Como sempre apareceram alguns “colas” para se promoverem. Como sempre a Ministra mostrou-se inflexível e imperturbável. Reconhece o descontentamento e diz que é necessário reganhar a confiança dos professores, mas não diz como espera fazê-lo. A Ministra apresenta alguns pressupostos, na sua linha orientadora, errados: nem todos os professores são sindicalizados, nem todos são ignorantes (mal informados como diz), nem todos têm filiação política, nem todos se contentam com manifestações e com barulhos…
Será que não está na altura de a Senhora Ministra parar para reflectir e para constatar que não é dona e senhora da verdade absoluta (nem tão pouco do ministério)? Parar para pensar que os professores também têm inteligência e vontade próprias e não precisam de andar a reboque? Não será altura de engolir o orgulho estúpido da política e dialogar, porque se cem mil protestam é porque algo está mal?
Não estará, também, na hora de mostrarmos o nosso descontentamento? A Sociedade assiste a tudo de braços cruzados?

Então eu pergunto: para que foi a Revolução dos Cravos?
A este propósito o “Jornal de Notícias” de hoje, 9Março08, na secção «O outro lado» traz um artigo de opinião (“A cultura é indomável) de Manuel Poppe que aqui partilho, pois vale a pena ser lido:
«1. Afirmaram-se, ontem os professores. Milhares. Não se manifestaram porque não têm nada que manifestar. Há mil gerações que ensinam as pessoas a serem pessoas. Afirmaram, ontem, a identidade - a vocação - contra o que este governo lhes tem retirado precisamente, a possibilidade de realizarem aquilo que os levou a serem professores: ensinarem. Humilhados, ofendidos, desacreditados, reagiram - felizmente, reagiram, que mestres covardes seria o fim da honestidade e o triunfo dos que nos convidam a aceitar a vigarice dos dias, em que o especulador vive sobre a miséria do próximo. Ao invés do que disseram os instalados e ambíguos, a reafirmação (revolta) dos professores não abre brechas, não os afasta dos alunos, nem os provoca: quem os ensina mostra aos alunos que não é pobre de pedir, "professoreco", agachado, hesitante, tíbio, com medo de perder o emprego. O professor é o amigo, que escolheu dar-se: entregar aos mais novos a experiência e o conhecimento. Transmitir-lhes a vida que viveu e quanto aprendeu com ela. E o que aprendeu, também, com eles, alunos, em sagrado convívio fraternal e solidário.
2. O espírito "corporativo" juntou os professores, dizem os ignorantes e os de má fé. Uniu-os o "corporativismo"?! É humor negro, comicidade revoltante. E não colhe os trabalhadores do mesmo ofício - como todos os trabalhadores - defendem a dignidade do seu ofício - e nenhum será mais nobre do que o de ensinar. "Corporativismo", no sentido pejorativo, arranjismo em comum, será o dos instalados no dinheiro, ou o dos serviçais políticos. Que, no próximo sábado, um partido dito socialista organize uma (contra) manifestação é deplorável. É paradoxal. É triste. É contraditório. O socialismo defende a liberdade, a iniciativa própria, o diálogo - não o autoritarismo dogmático. Que irá defender o partido dito socialista, (logo por azar na cidade do Porto, que sempre lutou pela democracia)? A indiscutabilidade da política desastrosa? Ou vai justificar o caos em que mergulharam as escolas? Os dois milhões de pobres? Os cem mil portugueses que emigram, anualmente? As crianças entregues à rua?
3. Uma coisa esta política de governo sem nexo - ou com a lógica carnífice do neo-liberalismo- não trava a força da Cultura. A vontade de saber. Ontem, os nossos professores, contra ventos e marés (e investigações policiais), provaram-no. Emprestaram-nos a voz - a nós, também abandonados e explorados, a ver a vida andar todos os dias para trás, em país doente

(José Amaral)

sábado, 8 de março de 2008

Lembrança Póstuma

Ontem tive conhecimento do desaparecimento de alguém que me marcou, que muito me ensinou e que se tornou (ainda que apenas através de correspondência escrita) meu amigo. O Professor Doutor Joaquim de Montezuma de Carvalho (que fez um comentário muito elogioso ao meu livro "Outonalidades") deixou de privar connosco. Contudo, a sua presença e sabedoria permanecerão entre nós. Vivas, assim o espero. O Ad Litteram reproduz aqui a notícia publicada ontem no jornal "O Primeiro de Janeiro".
A esse grande vulto da culturalidade, a minha Justa Homenagem. Até já amigo...
«Um mensageiro da universalidade
Joaquim Montezuma de Carvalho faleceu ontem, às 6h40, no Hospital S. José, em Lisboa, vítima de doença prolongada. O corpo estará hoje em câmara ardente a partir das 16h00 na Capela Nossa Senhora dos Remédios, em Alfama, donde sairá amanhã às 9h30 para o Cemitério do Alto de São João, onde se realiza o funeral pelas 10h00.
Ana Sofia Rosado

O filho Joaquim Montezuma de Carvalho, também advogado, falou ao JANEIRO do legado do seu pai – “um homem das letras, um filósofo que abominava a política”. Nascido na freguesia de Almedina, em Coimbra, no dia 21 de Novembro de 1928, Joaquim Montezuma de Carvalho licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra. No final dos anos 50, o jovem advogado partiu para Angola. Começou por ajudante de conservador em Nova Lisboa, cidade onde fez carreira nas conservatórias. Chegou a conservador do registo civil e comercial de Lourenço Marques, onde casou com Maria Júlia Neto da Silva, acumulando funções na magistratura. O filho único recorda, desde tenra idade, o gosto do pai pela escrita, pelos escritores e pela literatura, que considerava universal e una. “Não era pessoa de perder tempo a ver televisão ou a ir ao cinema. Os seus temas de conversa à hora da refeição eram um regresso aos escritores”, recorda. Amigo do poeta Jorge Luis Borges, que conheceu na Argentina, do escritor colombiano Gabriel García Marquez e do autor mexicano Octavio Paz, ambos prémios Nobel da Literatura, e de Aquilino Ribeiro, o pensador Joaquim Montezuma de Carvalho gostava de se isolar no meio dos livros, queria ter o essencial e era um homem de gostos muito simples: “O meu pai não se interessava pelas questões monetárias, apesar de ser advogado como eu”. O filho adianta: “Quando ele era novo teve autismo e fechava-se na biblioteca do meu avô, o filósofo e historiador figueirense Joaquim de Carvalho”. De regresso a Portugal, em 1976, exerce advocacia em Lisboa e dá início a uma carreira de escritor e de divulgador da cultura portuguesa. Os seus escritos, que versam sobre literatura, filosofia e história figuram principalmente no estrangeiro.
Colaborador com aprofundados ensaios do «das Artes das Letras» de O Primeiro de Janeiro desde 1999, “todas as segundas-feiras, pedia-me para o tirar da Internet”, recorda. Joaquim Montezuma de Carvalho despertou o interesse do filho por diversos autores. “Eu gostava muito de Júlio Verne, de Camilo Castelo Branco, de Eça de Queirós e ele apresentava-me os grandes autores mundiais”, partilha, lembrando que trocavam frequentemente impressões sobre o que estava a escrever.
Autor de vasta obra no campo do ensaio, Joaquim Montezuma de Carvalho foi distinguido com a Medalha José Vasconcelos, no México, atribuída pela Frente de Afirmación Hispanista, com sede em Nova Iorque, pelo volume «O Panorama das literaturas das Américas». Por ser autor de uma vasta bibliografia consagrada às culturas portuguesa e hispânica, foi designado, em 1999, Cavaleiro da Ordem de S. Eugênio de Trebizonde - de Espanha.


“Defensor da Lusofonia”
A directora do jornal O Primeiro de Janeiro, Nassalete Miranda, recorda que foi pela mão de José Augusto Seabra que Joaquim Montezuma de Carvalho se aliou ao suplemento literário «das Artes das Letras», desde a primeira hora: “Trouxe-nos semanalmente novos escritores e velhos escritores com palavras novas, de todo o mundo. Este é um exemplo de que a literatura não tem fronteiras”. “Defensor a tempo inteiro da Lusofonia”, acrescenta, “trouxe a este suplemento inúmeras vozes da América Latina, das mais conhecidas às que dão agora os primeiros passos, tanto na prosa como na poesia”.»


(in O Primeiro de Janeiro, edição online, 7MAR08)

quarta-feira, 5 de março de 2008

Grandes Nomes

Cyrano de Bergerac nasceu em Paris, a 6 de Março de 1619 e faleceu em Sannois, a 28 de Julho de 1655. Contemporâneo de Boileau e Molière, este escritor, poeta e livre-pensador, assinava as suas obras com pseudónimos criativos escolhidos aleatoriamente.

Gabriel García Marquez nasceu em Aracataca, a 6 de Março de 1928. Este escritor colombiano é um dos maiores nomes do panorama literário mundial. Ganhou o Prémio Nobel da Literatura em 1982. Da sua extensa obra destacam-se: Cem anos de solidão, Crónica de uma morte anunciada, Amor nos tempos do cólera e Memórias de minhas putas tristes.

Pearl S. Buck nasceu em Hillsboro (Virgínia Ocidental-EUA), a 26 de Junho de 1892 e faleceu em Danby (Vermont-EUA), a 6 de Março de 1973. Mestre em Literatura na Universidade de Cornell, escreveu em 1930 Vento Leste, que obteve grande reconhecimento da crítica. Recebeu o Prémio Pulitzer em 1932 e o Prémio Nobel de Literatura em 1938.

Vieira da Silva nasceu em Lisboa, a 13 de Junho de 1908 (dia de Santo António, padroeiro da cidade de Lisboa) e faleceu em Paris, a 6 de Março de 1992. Pintora portuguesa, naturalizou-se francesa em 1956.
Vieira da Silva foi autora de uma série de
ilustrações para crianças que constituem uma surpresa no conjunto da sua obra.

(José Amaral)

terça-feira, 4 de março de 2008

Poema


Mimosa


Na berma da estrada
manchas verdes e amarelas,
de um vivo amarelo,
avivam a paisagem.

O cheiro intenso
diz-nos serem
mimosas.

Enfeitam os montes
e revelam
quão pálida
é a vivência
das terras
que as acolhem.

Em breve,
o amarelo
dará lugar ao verde
e a palidez
dará lugar à…
esperança.



(in Outonalidades, José Amaral)

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Nova Sugestão

Acabei de reler (lê-se num instantinho) o livro de José Eduardo Agualusa, Fronteiras Perdidas (Publicações Dom Quixote, 118 pág.). É um pequeno livro de pequenos contos dividido em duas partes: “Fronteiras Perdidas” (nove contos) e “Outras Fronteiras” (sete contos).
A narrativa destas fronteiras centra-se no universo ficcional globalizado e globalizante e na multiplicidade das identidades originadas após a independência angolana. São contos de e em viagem literária pelo tempo e pelo espaço da “pós-colonização”.
Esta obra, deste angolano nascido no Huambo a 13 de Dezembro de 1960, obteve o Grande Prémio de Conto da Associação Portuguesa de Escritores.

(José Amaral)

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Leituras

Acabei de reler o livro Sonetos de Luís de Camões (da Planeta DeAgostini, 197 pág.) numa edição coordenada por Vasco Graça Moura.
Quase todos os dados biográficos de Camões têm um carácter incerto, dada a quase inexistência de documentos. Assim, e no que respeita aos sonetos, também não há um número certo dos sonetos que são atribuídos a Camões. Muitos são os estudos e em muito diferem as opiniões.
Ao falarmos de Sonetos estamos a falar de uma forma poética constituída por catorze versos (soneto clássico) decassílabos, de origem italiana. O soneto clássico compõe-se de quatro estrofes (duas quadras e dois tercetos).
Camões soube cultivar esta forma de modo notável. Aqui fica um exemplo.


Alegres campos, verdes arvoredos,
Claras e frescas águas de cristal,
Que em vós os debuxais ao natural,
Discorrendo da altura dos rochedos;

Silvestres montes, ásperos penedos
Compostos de concerto desigual;
Sabei que, sem licença de meu mal,
Já não podeis fazer meus olhos ledos.

E pois já me não vedes como vistes,
Não me alegrem verduras deleitosas,
Nem águas que correndo alegres vêm.

Semearei em vós lembranças tristes,
Regar-vos-ei com lágrimas saudosas,
E nascerão saudades de meu bem.


(José Amaral)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Recordar

Pouco mais de um mês depois (foi a 5 de Janeiro) da morte de Luiz Pacheco, apeteceu-me partilhar este excerto retirado da obra (por muitos considerada a obra-prima do autor) Comunidade. «Estendo o pé e toco com o calcanhar numa bochecha de carne macia e morna; viro-me para o lado esquerdo, de costas para a luz do candeeiro; e bafeja-me um hálito calmo e suave; faço um gesto ao acaso no escuro e a mão, involuntária tenaz de dedos, pulso, sangue latejante, descai-me sobre um seio morno nu ou numa cabecita de bebé, com um tufo de penugem preta no cocuruto da careca, a moleirinha latejante; respiramos na boca uns dos outros, trocamos pernas e braços, bafos suor uns com os outros, uns pelos outros, tão aconchegados, tão embrulhados e enleados num mesmo calor como se as nossas veias e artérias transportassem o mesmo sangue girando, palpitassem, compassadamente, silenciosamente, duma igual vivificante seiva.
É um bicho poderoso, este, uma massa animal tentacular e voraz, adormecida agora, lançando em redor as suas pernas e braços, como um polvo, digo: um polvo excêntrico, sem cabeça central, sem ordenação certa (natural); um grande corpo disforme, respirando por várias bocas, repousando (abandonado) e dormindo, suspirando, gemendo. Choramingando, às vezes. Não está todo à vista, mas metido nas roupas, ou furando aos bocados fora delas. Parece (acho eu, parece) uma explosão que atingiu um grupo de gente parada e, agora, o que está ali são restos de corpos mutilados: uma pernita de criança, um braço nu sozinho, um punho fechado (um adeus?... uma ameaça?...), um tronco mal coberto por uma camisa branca amarrotada. Ou seria, então, talvez, um desabamento súbito, uma avalanche de neve encardida, que nos cobriu a todos, ao acaso, aos bocados, e para ali ficámos, quietos e palpitando, à espera, quietos e confiantes, dum socorro improvável, cada vez mais (e as horas passam!) improvável, incerto, aguardando a luz da manhã, que chega sempre, que acaba sempre por chegar, para vivos e mortos, calados ou palrantes, ladinos ou soterrados, os que já desistiram da madrugada e os que, ainda, contra qualquer lógica, contra qualquer quantidade de esperança, confiam ainda e esperam.
Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés, o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer. Voltamo-nos, remexemos, tomados pelo medo de estarmos vivos, pela alegria dos sonhos, quem sabe!, e encontramos, chocamos carne, carne que não é nossa, que é um exagero, um a-mais do nosso corpo mas aqui, tão perto e tão quente, é como se fosse nossa carne também: agarrada (palpitante, latejando) pelos nossos dedos; calada (dormindo, confiante) encostada ao nosso suor».

(José Amaral)

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Lianor ou Leonor?

Descalça vai para a fonte

Descalça vai para a fonte
Lianor pela verdura;
Vai fermosa, e não segura.

Leva na cabeça o pote,
O testo nas mãos de prata,
Cinta de fina escarlata,
Sainho de chamelote;
Traz a vasquinha de cote,
Mais branca que a neve pura.
Vai fermosa e não segura.

Descobre a touca a garganta,
Cabelos de ouro entrançado
Fita de cor de encarnado,
Tão linda que o mundo espanta.
Chove nela graça tanta,
Que dá graça à fermosura.
Vai fermosa e não segura.

(Luís de Camões)




Poema da auto-estrada


Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta
Vai na brasa de lambreta.

Leva calções de pirata,
Vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.


Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.


Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.


Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.


Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.

(António Gedeão)
(José Amaral)

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Quem responde?...

Na edição da Revista “Visão” desta semana (N.º 781.21 de Fevereiro 2008) podemos ler um excelente ensaio de José Gil intitulado “As duas racionalidades”. Fico-me pela parte final que passo a transcrever:

«Um sector gritante de extracção de mais-valias de biopoder é o da Educação. Pela natureza do trabalho do professor (material e imaterial), é sempre possível fazer crer que “modernizar” igual a “gerir bem” igual a “ensinar bem”. O que permite retirar o máximo da “modernização” em mais-valias materiais e imateriais.
Por exemplo, a avaliação dos professores deve ser feita, mas os parâmetros impostos pelo ministério, as aberrações nas exigências da assiduidade dos docentes, a quase impossibilidade de obter a nota máxima, as dificuldades extremas em subir na carreira, o estatuto dos avaliadores incompetentes na matéria avaliada, etc. – estão a empurrar os professores para o abandono da profissão e para a reforma antecipada. A Educação sofre um massacre que provoca a fuga dos professores: não é isto um dos objectivos da “contenção”, a redução do número de docentes e dos custos da educação? A racionalidade necessária da avaliação esconde a outra racionalidade imposta pelo défice.
Nisto tudo, uma questão intriga: porquê tanto ódio, tanto desprezo, tanto ressentimento contra a figura do professor?»

(José Amaral)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Dia da Língua Materna

Dia da Língua Materna: Extingue-se um idioma a cada 15 diasUma forma de falar, ouvir, pensar e representar o universo por parte do Homem desaparece para sempre a cada 15 dias, que é o ritmo de extinção das mais de 6.700 línguas existentes no mundo.
Em apenas duas gerações, terão desaparecido mais de metade destas línguas, ou seja, ter-se-ão perdido quase 4.000 formas de dizer «amor», segundo calculam os filólogos e linguistas.
A 21 de Fevereiro, quinta-feira, a UNESCO celebra o Dia Internacional da Língua Materna, no ano que já foi declarado pela ONU, como o Ano Internacional das Línguas.
Segundo a UNESCO, as línguas são veículos de transmissão dos sistemas de valores e de expressões culturais, constituindo um factor decisivo para a identidade de cada pessoa.
Ainda que sejam uma componente essencial do património vivo da humanidade, definição dada pela organização cultural e educativa da ONU, mais de metade dos cerca de 6.700 idiomas que existem estão em perigo de extinção.
Algumas línguas encontram-se concentradas num só país, tal como acontece no México, país de língua espanhola que, segundo o catálogo da publicação especializada «Ethnologue», possui cerca de 297 línguas vivas, ainda que em algumas, como o uto-azteca Opata, restem poucas frases por pronunciar: em 1993, apenas 11 pessoas falavam este idioma no Distrito Federal e quatro no Estado do México.
Noutros países, a quantidade de línguas é ainda maior: existem 820 línguas na Papua-Nova Guiné, 737 na Indonésia, 536 na Nigéria, 427 na Índia e ainda mais de 300 línguas sobreviveram à conquista do oeste nos Estados Unidos.
Em alguns países, a taxa de extinção é vertiginosa, como o Brasil, país que tem catalogadas 235 línguas, e provavelmente alguma por descobrir, assistiu ao desaparecimento de 47 idiomas durante o século XX. As 188 línguas vivas brasileiras, excepto o português e o espanhol, ficam prejudicadas por pertencerem a comunidades muito pequenas e dispersas.

(in Diário Digital, edição online 21FEV08)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Mais um "casamento" invulgar

Georges Bernanos nasceu em Paris, a 20 de Fevereiro de 1888 e faleceu em Neuilly-sur-Seine, a 5 de Julho de 1948. Esritor e jornalista francês participou activamente da vida política de seu país. Numa série de artigos posicionou-se contra o armistício franco-germânico.
Aqui ficam algumas das suas célebres citações:

« On n'attend pas l'avenir comme on attend un train : on le fait. »
« Les sentiments les plus simples naissent et croissent dans une nuit jamais pénétrée, s'y confondent ou s'y repoussent selon de secrètes affinités, pareils à des nuages électriques, et nous ne saisissons à la surface des ténèbres que les brèves lueurs de l'orage inaccessible. » (Histoire de Mouchette)
« Il n'y a de vraiment précieux dans la vie que le rare et le singulier, la minute d'attente et le pressentiment. » (Sous le soleil de Satan)
« Quand un homme -ou un peuple- a engagé sa parole, il doit la tenir, quel que soit celui auquel il l'a engagée. » (Préface Journal d'un curé de campagne)
« Pour moi, le passé ne compte pas. Le présent non plus d'ailleurs, ou comme une petite frange d'ombre, à la lisière de l'avenir. » (Monsieur Ouine) « -Moi, je me méfie. D'une manière ou d'une autre, monsieur Ouine, je me méfie de Dieu -telle est ma façon de l'honorer. » (Monsieur Ouine)
« Souffrir, croyez-moi, cela s'apprend. » (Monsieur Ouine)
« Si je recommençais ma vie, je tâcherais de faire mes rêves encore plus grands; parce que la vie est infiniment plus belle et plus grande que je n'avais jamais cru, même en rêve. »
« C'est la fièvre de la jeunesse qui maintient le reste du monde à la température normale ; quand la jeunesse refroidit, le monde claque des dents »


Vitorino Nemésio nasceu em
Praia da Vitória (Açores), a 19 de Dezembro de 1901 e faleceu em Lisboa, a 20 de Fevereiro de 1978. Foi um dos maiores nomes da Literatura Portuguesa (poeta, escritor e intelectual). A sua obra mais visível é Mau Tempo no Canal (publicada em 1944), cuja acção decorre nas ilhas Faial, Pico, São Jorge e Terceira, sendo que o núcleo da intriga se desenvolve na Horta.
Ficou igualmente celebrizado e conhecido por ser o autor e apresentador do programa televisivo Se bem me lembro.
Aqui fica um belíssimo poema de Nemésio:





SEMÂNTICA ELECTRÓNICA

Ordeno ao ordenador que me ordene o ordenado
Ordeno ao ordenador que me ordenhe o ordenhado
Ordinalmente
Ordenadamente
Ordeiramente.
Mas o desordeiro
Quebrou o ordenador
E eu já não dou ordens coordenadas
Seja a quem for.
Então resolvo tomar ordens
Menores, maiores,
E sou ordenado,
Enfim --- o ordenado
Que tentei ordenhar ao ordenador quebrado.
--- Mas --- diz-me a ordenança ---
Você não pode ordenhar uma máquina:
Uma máquina é que pode ordenhar uma vaca.
De mais a mais, você agora é padre,
E fica mal a um padre ordenhar, mesmo uma ovelha
Velhaca, mesmo uma ovelha velha,
Quanto mais uma vaca!
Pois uma máquina é vicária (você é vigário?):
Vaca (em vacância) à vaca.
São ordens...
Eu então, ordinalmente ordeiro, ordenado, ordenhado,
Às ordens da ordenança em ordem unida e dispersa
(Para acabar a conversa
Como aprendi na Infantaria),
Ordenhado chorei meu triste fado.
Mas tristeza ordenhada é nata de alegria:
E chorei leite condensado,
Leite em pó, leite céptico asséptico,
Oh, milagre ordinal de um mundo cibernético!
(José Amaral)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

O escritor francês André Breton nasceu em Tinchebray, a 18 de Fevereiro de 1896 e faleceu em Paris, a 28 de Setembro de 1966. Foi ele o impulsionador e o grande teórico do Surrealismo.
Em 1919, Breton funda com Louis Aragon e Philippe Soupault a revista Littérature e entra, também, em contacto com Tristan Tzara (fundador do Dadaismo). Breton publica o Primeiro Manifesto Surrealista, em 1924.
Assim, e sob o impulso de Breton o Surrealismo torna-se um movimento europeu que abrange todos os domínios da arte.
Aqui fica um belíssimo poema da sua autoria:



Tournesol

La voyageuse qui traverse les Halles à la tombée de l'été
Marchait sur la pointe des pieds
Le désespoir roulait au ciel ses grands arums si beaux
Et dans le sac à main il y avait mon rêve ce flacon de sels
Que seule a respiré la marraine de Dieu
Les torpeurs se déployaient comme la buée
Au Chien qui fume
Ou venaient d'entrer le pour et le contre
La jeune femme ne pouvait être vue d'eux que mal et de biais
Avais-je affaire à l'ambassadrice du salpêtre
Ou de la courbe blanche sur fond noir que nous appelons pensée
Les lampions prenaient feu lentement dans les marronniers
La dame sans ombre s'agenouilla sur le Pont-au-Change
Rue Git-le-Coeur les timbres n'étaient plus les mêmes
Les promesses de nuits étaient enfin tenues
Les pigeons voyageurs les baisers de secours
Se joignaient aux seins de la belle inconnue
Dardés sous le crêpe des significations parfaites
Une ferme prospérait en plein Paris
Et ses fenêtres donnaient sur la voie lactée
Mais personne ne l'habitait encore à cause des survenants
Des survenants qu'on sait plus devoués que les revenants
Les uns comme cette femme ont l'air de nager
Et dans l'amour il entre un peu de leur substance
Elle les interiorise
Je ne suis le jouet d'aucune puissance sensorielle
Et pourtant le grillon qui chantait dans les cheveux de cendres
Un soir près de la statue d'Etienne Marcel
M'a jeté un coup d'oeil d'intelligence
André Breton a-t-il dit passe


António Aleixo nasceu em Vila Real de Santo António, a 18 de Fevereiro de 1899 e faleceu (vítima de tuberculose) em Loulé, a 16 de Novembro de 1949.
Considerado um dos poetas populares portugueses (embora semi-analfabeto) mais conhecido, ficou famoso pela sua ironia e pela crítica social. Teve uma vida atribulada (mudanças de emprego – uma delas levou-o a ser cauteleiro -, imigração, tragédias familiares, doença) no entanto era uma personalidade conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo.
Aqui ficam uma belíssimas quadras da sua autoria:



Quadras

Sou humilde, sou modesto;
Mas, entre gente ilustrada,
Talvez me digam que eu presto,
Porque não presto p’ra nada.

Eu não tenho vistas largas,
Nem grande sabedoria,
Mas dão-me as horas amargas
Lições de filosofia.

Tu não tens valor nenhum,
Andas debaixo dos pés,
Até que apareça algum
Doutor que diga quem és.

À guerra não ligues meia,
Porque alguns grandes da terra,
Vendo a guerra em terra alheia,
Não querem que acabe a guerra.

Depois de tanta desordem,
Depois de tam dura prova,
Deve vir a nova ordem,
Se vier a ordem nova

Eu não sei porque razão
Certos homens, a meu ver,
Quanto mais pequenos são
Maiores querem parecer.

Vemos gente bem vestida,
No aspecto desassombrada;
São tudo ilusões da vida,
Tudo é miséria dourada.

Os novos que se envaidecem
P’lo muito que querem ser
São frutos bons que apodrecem
Mal começam a nascer.



(José Amaral)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Poema


LuZ

A rua deserta
apadrinhava uma escuridão,
que apenas era atenuada
pela cintilante luz
de uma vela, na janela,
daquele humilde casebre.

Rosita,
uma pobre viúva,
que trajava de preto,
carregado,
sentido,
intentava, assim,
afastar o medo dos filhos
e “distrair-lhes” a fome.

O toco de vela
tinha o pavio
já quase gasto.
A cera escorria
(como as lágrimas dos catraios)
pela parede enegrecida.

Não havia pão
naquela casa,
só fome... e...
uma luz.

Essa luz,
de uma vela amarela,
lembrava-me a mim
que passava naquela rua,
quão inumeráveis
são as casas
onde não há um naco de pão
para enganar a miséria.

Mas dizia-me que
naquela casa
a Esperança
assim como a Luz
(da vela amarela)
era a última a morrer.



(in “Poder da Díctamo”, José Amaral)

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Sugestão poética

Hoje sugiro aqui um livro que não é uma leitura, mas uma releitura. Trata-se de um livro de Poesia. Um belo livro! Saúl Dias – Obra Poética (361. Pág, Campo das Letras).
Tratando-se de um livro de Poesia pouco há a dizer (não que não houvesse, há), porque ou se gosta ou nada feito. Todavia, estamos na presença de um tipo de Poesia que nos remete para a meditação espiritual.
Aqui fica um exemplo, um poema de Saúl Dias, como confirmação daquilo que acabo de referir.

UM POEMA

Um poema
é a reza dum rosário
imaginário.
Um esquema
dorido.
Um teorema
que se contradiz.
Uma súplica.
Uma esmola.

Dores,
vividas umas, sonhadas outras…
(Inútil destrinçar).

Um poema
é a pedra duma escola
com palavras a giz
para a gente apagar ou guardar…
(José Amaral)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Dia de S. Valentim - Dia dos Namorados

A 14 de Fevereiro comemora-se o dia de São Valentim. Santo católico dá nome ao Dia dos Namorados em muitos países.
Durante o governo do imperador Claudius II, este proibiu a realização de casamentos no seu reino, para formar um grande e poderoso exército. Claudius acreditava que os jovens se não tivessem família, se alistariam com maior facilidade. No entanto, um bispo romano continuou a celebrar casamentos, indo contra a proibição do imperador. A prática foi descoberta e Valentim foi preso e condenado à morte. Enquanto estava preso, muitos jovens jogavam flores e bilhetes dizendo que os jovens ainda acreditavam no amor. Valentim foi decapitado a 14 de Fevereiro de 270 d.C.
Para o dia de S. Valentim aqui fica um poema de Eugénio de Andrade.



É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,

ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos,

muitas espadas.

É urgente inventar alegria,

multiplicar os beijos, as searas,

é urgente descobrir rosas e rios

e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz

impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente

permanecer.

(José Amaral)

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Poema

Hoje publico um poema de Jorge de Sena (não digo que seja a pedido da Meg...). Vale a pena lê-lo com muita atenção. Lê-lo, só, não chega é preciso relê-lo.
(Este post é para o meu amigo Professor Doutor Joaquim de Montezuma de Carvalho).

A Portugal

Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
A pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, e de vileza,
de mesquinhez, de fatua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol calada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:
eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço mas seres minha, não.


(José Amaral)

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Foi há 25 anos

Há 25 anos atrás, Michael Jackson lançava o álbum "Thriller". Foi o início de muitos recordes. Recorde de vendas em todo o mundo, este álbum figura no Guiness Book of Records como o mais vendido da história. Até 2006 mais de cem milhões de pessoas haviam adquirido o disco. Este álbum vai agora ser reeditado com extras e chega amanhã às lojas, para assinalar os 25 anos desde a primeira edição, em 1982.
Este álbum, produzido por Quincy Jones, esteve 37 semanas no primeiro lugar de vendas nos Estados Unidos e até hoje rendeu 27 discos de platina. Em Portugal, e segundo a editora Sony BMG, venderam-se 81 mil discos.
O disco é ainda hoje o maior sucesso de Michael Jackson e com ele Michael Jackson foi o primeiro artista negro a aparecer na MTV, que na altura estava em ascensão.
Michael Jackson, que em Agosto completa 50 anos, é por muitos apontado como "o rei da pop" por ter reinventado a música debaixo de várias influências, da música de dança ao funk, da soul ao R&b, sem esquecer a vertente coreográfica e visual. Cantor desde criança viu-se, ao longo da vida, envolvido em muitas polémicas.
Mas não só polémicas. Em
1985, Michael Jackson se uniu a Lionel Richie e Quincy Jones e promoveu a campanha USA for Africa. A ideia foi gravar uma canção (“We are the World”) cujos lucros reverteriam para reduzir os índices de mortalidade pela fome em África.
Goste-se ou não, Michael Jackson é uma figura ímpar do mundo da música.

(José Amaral)

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Grande poeta

Sebastião da Gama nasceu em Vila Nogueira de Azeitão, Setúbal, a 10 de Abril de 1924 e faleceu a 7 de Fevereiro de 1952, em Lisboa (morre precocemente, atingido pela tuberculose).
Exerceu a profissão de professor (tinha o curso de Filologia Românica) em Lisboa, Setúbal e Estremoz.
Além de professor, Sebastião da Gama foi um excelente poeta. Ficou para a história pela sua dimensão humana, nomeadamente no convívio com os alunos, registado nas páginas do seu famoso Diário.
Aqui fica um belíssimo poema da sua autoria:

Pelo Sonho é que vamos

Pelo sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.

(José Amaral)


Hoje há sermão

«Enfim, que havemos de pregar hoje aos peixes? Nunca pior auditório. Ao menos têm os peixes duas boas qualidades de ouvintes: ouvem e não falam. Uma só cousa pudera desconsolar ao pregador, que é serem gente os peixes que se não há-de converter. Mas esta dor é tão ordinária, que já pelo costume quase se não sente. Por esta causa mão falarei hoje em Céu nem Inferno; e assim será menos triste este sermão, do que os meus parecem aos homens, pelos encaminhar sempre à lembrança destes dois fins.Vos estis sal terrae. Haveis de saber, irmãos peixes, que o sal, filho do mar como vós, tem duas propriedades, as quais em vós mesmos se experimentam: conservar o são e preservá-lo para que se não corrompa. Estas mesmas propriedades tinham as pregações do vosso pregador Santo António, como também as devem ter as de todos os pregadores. Uma é louvar o bem, outra repreender o mal: louvar o bem para o conservar e repreender o mal para preservar dele. Nem cuideis que isto pertence só aos homens, porque também nos peixes tem seu lugar. Assim o diz o grande Doutor da Igreja S. Basílio: Non carpere solum, reprehendereque possumus pisces, sed sunt in illis, et quae prosequenda sunt imitatione: «Não só há que notar, diz o Santo, e que repreender nos peixes, senão também que imitar e louvar.» Quando Cristo comparou a sua Igreja à rede de pescar, Sagenae missae in mare, diz que os pescadores «recolheram os peixes bons e lançaram fora os maus»: Elegerunt bonos in vasa, malos autem foras miserunt. E onde há bons e maus, há que louvar e que repreender. Suposto isto, para que procedamos com clareza, dividirei, peixes, o vosso sermão em dois pontos: no primeiro louvar-vos-ei as vossas virtudes, no segundo repreender-vos-ei os vossos vícios. E desta maneira satisfaremos às obrigações do sal, que melhor vos está ouvi-las vivos, que experimentá-las depois de mortos.»
(in “O Sermão de Santo António aos Peixes”, excerto, Padre António Vieira)

(José Amaral)

Genial orador

O padre António Vieira nasceu em Lisboa, a 6 de Fevereiro de 1608. Faleceu na Baía a 17 de Junho de 1697.
Este religioso e escritor tornou-se no mais notável orador e prosador português. Destacou-se como missionário em terras brasileiras, defendendo os direitos dos povos indígenas.
Em 1623 inicia o noviciado na Companhia de Jesus. Ordena-se sacerdote em 1635, exerce as funções de pregador nas aldeias baianas e começa a granjear notoriedade como pregador. Os primeiros sermões já reflectem as preocupações socio-políticas do padre António Vieira. Além disso, defendeu também os
judeus, a abolição da distinção entre cristãos-novos (judeus convertidos) e cristãos-velhos (os católicos tradicionais), e a abolição da escravatura.
Na
literatura, os seus sermões possuem considerável importância, destacando-se o " Sermão de Santo António aos Peixes ". É expulso do Maranhão pelos colonos, em 1661, e regressa a Lisboa. Em 1665 é preso em Coimbra pelo Tribunal do Santo Ofício sob a acusação de acreditar nas profecias do poeta Bandarra. A sua prosa é vista como um modelo de estilo vigoroso e lógico, onde a construção frásica ultrapassa o mero virtuosismo barroco. A sua riqueza e propriedade verbais, os paradoxos e os efeitos persuasivos que ainda hoje exercem influência no leitor.
Certas subtilezas irónicas e o tom combativo tornaram a arte do padre António Vieira admirável.
Quem já leu a obra do padre António Vieira sabe que o que aqui fica dito é, apenas, "uma gota de água no oceano". A sua vasta e rica obra merece toda a atenção.

(José Amaral)

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Pausa

O Carnaval é um período de festas regidas pelo ano lunar, isto é não tem uma data fixa (embora tenha um dia, terça-feira, fixo). O dia de Carnaval (“adeus carne”) antecede a Quarta-feira de cinzas, início do tempo da Quaresma. Actualmente, o Carnaval tornou-se um “produto” social e é feito de desfiles e fantasias. Muitos são os carnavais pelo mundo fora, mas dois destacam-se: o brasileiro e o veneziano.
Portugal também “comemora” o Entrudo e existe uma grande tradição carnavalesca, nomeadamente em Ovar, Torres Vedras e Sines.
Na zona de Viseu (e reconhecido em todo o país) o carnaval de Canas de Senhorim é famoso pela “Dança dos Cus”.
Este é, igualmente, um tempo de descanso, pelo que nestes dias talvez não ande por aqui. A todos os amigos/leitores do Ad Litteram um bom Carnaval.

(José Amaral)

Poesia antes da Folia

Georg Trakl é um poeta austríaco, nascido a 3 de Fevereiro de 1887. Aqui fica um poema da sua autoria, numa tradução de Cláudia Cavalcante:

DE PROFUNDIS

Há um restolhal, onde cai uma chuva negra.
Há uma árvore marrom; ali solitária.
Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.
Como é triste o entardecer

Passando pela aldeia
A terra órfã recolhe ainda raras espigas.
Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,
E seu colo espera o noivo divino.

Na volta
Os pastores acharam o doce corpo
Apodrecido no espinheiro.

Sou uma sombra distante de lugarejos escuros.
O silêncio de Deus
Bebi na fonte do bosque.

Na minha testa pisa metal frio
Aranhas procuram meu coração.
Há uma luz, que se apaga na minha boca.

À noite encontrei-me num pântano,
Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos.

(José Amaral)