sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Moçambique


MoçambiquE

***

Moçambique:

ver-te era

querer-te,

sonhar-te era ter-te.


Bela,

selvagem,

formosa,

nativa,

escrava,

colonizada,

bélica,

revoltada,

libertada,

e... destruída.


De teu solo

nasciam corpos mutilados,

crianças órfãs,

velhos cadavéricos;

nascia também a destruição,

o fratricídio,

a esperança poenta.

Ias esculpindo

- a golpes de bazuca,

de metralhadora,

de granadas,

de minas –

a tua pobreza terceiro-mundista.


Ficaras rica de nada.

Sonhavas com um futuro

de coisas que nunca tiveras:

Paz

Amor

Liberdade.


Encontraste-te!!!


Renasceste, qual fénix,

das avermelhadas cinzas.

Ias esculpindo

- em passadas de elefante (pesadas)

que desejavas de chita (velozes) –

o teu futuro que previas risonho.


Aquele último ano do século

no último mês bissexto,

foi, qual colono, destruidor

para ti.

Levou-te tudo.

As monções, transformadas em cheias,

destruíram tudo, inundando,

como antes o fora com lágrimas,

o País.

As pessoas e os animais

procuravam salvação

a todo o custo.

Por todo o lado

se via destruição e miséria.


Uma vez mais

a vontade dos outros

- neste caso das forças da Natura -

se sobrepôs à tua vontade.

Não te deixes vencer!

Anima-te, renasce, revolta-te!


«Deus escreve direito

por linhas tortas».


*** Escrito em finais de Fevereiro 2000,

aquando de umas assoladoras cheias.


(in “Poder da Díctamo”, José Amaral)

Em 2000 as cheias assolaram este País (onde eu nasci) deixando um rasto de destruição e atrasando o desenvolvimento deste país-mártir. Volvidos sete anos – será o ciclo dos sete anos? – a Natureza causa novos estragos em Moçambique. Que a protecção divina não permita que as forças da natura causem estragos irreparáveis nesta Fénix que procura erguer-se nas cinzas da destruição.

José Amaral

3 comentários:

Inconformist disse...

Sem palaras...avassalador...um País de sonho, terra de um povo nobre e altivo...foi lá que pela 1ª vez contactei com uma diversidade cultural enriquecidora,nunca me vou esquecer daquele mar,da ilha de Moçambique,da mesquita,onde nos tinhamos que descalçar...do cheiro intenso dos frutos e da terra, a minha memória fotográfica não me permite muito mais,pois era uma menina que tinha "acabado de sair do colo". Tudo o que está no poema
não podia ser melhor escrito, é de uma acutilância e de
uma consciência fortíssima!

CMatos disse...

Estou contigo Joaquim!
A Beira, a minha querida Beira está novamente arrasada...
Que bom seria VOLTAR!

Bom fim de semana.

Amaral disse...

Inconformist e Matos
Quem nasce naquela terra não esquece. A guerra destruíu um paraíso que quer erguer-se de novo, mas a força divina parece não permitir. Mas como diz o povo "não há mal que sempre dure..." e "depois da tempestade vem a bonança".
Bom fim-de-semana