terça-feira, 11 de julho de 2006

Pausa Poética

RestolhO


Era noite.

Noite de breu medonho.

Acometia a nossa pequeneza.

Caminhávamos, passos periclitantes,

através dos atalhos dos campos.

Atravessámos um restolho.

A lua, alta, começou a vislumbrar-se,

e, foi quando, ao largo,

ressaltou o restolho,

negro, ao luar.

O trigo fora já cortado;

naquele campo – que outrora

fora um mar dourado –

apenas, e só, algumas espigas caídas

deixadas ao abandono,

prenhes de sementes,

esperando que alguma pobre viúva

as viesse recolher em seu regaço,

ou quiçá,

algum animal as transportasse

para servirem

de lauto sustento

aos seus rebentos.

Ao largo do restolho,

do lado direito,

árvores – penso que choupos,

quais guardiões –

demasiado esguias e esbeltas,

estrategicamente posicionadas,

guardavam o seu tesouro.

Os campos cheiravam

a rosmaninhos;

os grilos entoavam

uma melodia monocórdica

que se “espraiava”

ao longo do restolho.


De repente,

um pio, horripilante,

de um mocho

acordou a noite.

Fez-nos avivar o passo

e atravessar, quasi a correr...

...o restolho.

in Poder da Díctamo, José Amaral

2 comentários:

P.Veiga disse...

Realmente........o medo por vezes apodera-se das pessoas e faz com que se cometam autenticas loucuras.

Anónimo disse...

Boa...o pio horripiliante de um mocho(pássaro com uma positiva carga simbólica!) acordou a noite!
leio como o despertar da consciência...perante o negrume..o nada!Gostei das metáforas!
B.