quinta-feira, 15 de novembro de 2007

O Poeta-Cauteleiro

António Aleixo nasceu em Vila Real de Santo António,a 18 de Fevereiro de 1899 e morreu em Loulé, a 16 de Novembro de 1949 (de tuberculose). É, talvez o maior poeta popular português, embora seja semi-analfabeto. Famoso pela sua ironia e pela crítica social sempre presente nos seus versos.
A sua foi tudo menos monótona; foi tecelão, guarda de polícia, servente de pedreiro, trabalho este, que emigrado, também exerceu em França. Quando regressou a seu Algarve passou a vender cautelas (chegou a ser conhecido nas feira como o “poeta-cauteleiro”).
O AD LITTERAM deixa aqui algumas quadras deste singular poeta. Que sirvam para rir, mas que não deixem de nos fazer pensar.


«Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando, a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.


Eu não tenho vistas largas,
nem grande sabedoria,
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.


Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo,
calai-vos, que pode o povo
qu'rer um mundo novo a sério.


P'ra mentira ser segura
e atingir profundidade,
tem que trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.


Sei que pareço um ladrão...
mas há muitos que eu conheço
que, não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço.


O mundo só pode ser
melhor do que até aqui,
- quando consigas fazer
mais p'los outros que por ti!


Uma mosca sem valor
poisa, c'o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.


Para não fazeres ofensas
e teres dias felizes,
não digas tudo o que pensas,
mas pensa tudo o que dizes.

Sei que umas quadras são conselhos
que vos dou de boa fé;
outras são finos espelhos
onde o leitor vê quem é.

Vemos gente bem vestida,
no aspecto desassombrada;
são tudo ilusões da vida,
tudo é miséria dourada.

Julgando um dever cumprir,
Sem descer no meu critério,
- Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério!»

(José Amaral)

8 comentários:

marsof81 disse...

Gosto muito do António Aleixo!! Tenho dois livros dele e quando era mais nova lia-os!! Gostava das suas quadras. Continuo a gostar mas já não me sento a ler os seus versos!! Li estas quadras e lembro-me delas quase todas!! Bom fim de semana!!!

"A rica tem nome fino
A pobre tem nome grosso
A rica teve um menino
A pobre pariu um moço."

Isabel-F. disse...

Acho António Aleixo soberbo.
Nunca me canso de o ler.


beijinhos e bom fim de semana

Amaral disse...

marsof81 (Ana Sofia)
Antes de tudo bem-vinda ao meu cantinho.
Se me permite faz mal em não se sentar a ler. Aleixo ou outro qualquer.
Bom fim-de-semana
Bjo

Amaral disse...

Isabel
Este "pobre" poeta (Aleixo) muito nos ensina, é pena que alguns não procurem a sua poesia. Alguns=políticos armados em ... sei lá o quê.
Bom fim-de-semana
Bjo

Meg disse...

Tanta sabedoria, a deste homem!
Devia ser obrigatória a sua leitura... também!
Verdades tão evidentes nos dias de hoje, ainda.
Um abraço

Amaral disse...

Meg
Tem toda a razão: sabedoria aliada a uma extrema humildade.
Verdades que as pessoas não gostam de ouvir: ontem, hoje e sempre.
Bom fim-de-semana
Abraço

marsof81 disse...

Expressei-me mal!! Hoje em dia já não me sento a ler António Aleixo!! Neste último ano k passou devo ter lido perto de 10 livros. O Código da Vinco, Anjos e Demónios e mais uma meia dúzia de policiais k adquiri numa feira do livro!! Desses ainda tenho mais para ler. São a minha leitura preferida e virei-me para ela neste momento. Acho que tudo começou com a coleção Uma Aventura...!! Bj e uma boa semana!!!

Amaral disse...

Ana Sofia
Está desfeito o lapso e folgo em saber que lê, e muito. Parabéns.
Boa semana.
Bjo