terça-feira, 28 de outubro de 2008

Poema




AlvoreS

No alvor da aurora
abri os olhos, mas não acordei.
Sentia-me sorumbático,
perdido na imensidão
de um deserto de acalmia
de brisas suaves
de pensativos e expectantes
desejos incontidos
incontados
“in com tudos”.

Bateram, suavemente,
na madeira das minhas pálpebras
perguntando se morava,
naqueles “berlindes observantes”,
alguém.
Não, não morava lá ninguém.
Perdão!
Morava um... invisual.

O meu mundo,
sempre com a luz eléctrica cortada
(maldita companhia,
só pensa em impostos)
era negro;
de um negro lindo,
para mim,
um negro acetinado
que me protegia.

Agradeci aos Céus
o facto de ser invisual.
Não, não é masoquismo!!!

Assim não sou obrigado
a ver violência,
miséria,
ódio, ...nada.

Chamam-me cego,
alguns ceguinho,
eu sei.
Quero que saibais,
irmãos:
- «Vejo melhor, eu,
na minha cegueira,
que vós na vossa verborreia prepotente».


(in “Poder da Díctamo”, José Amaral)

6 comentários:

Meg disse...

Caro Amaral

Um belo e eloquente poema que nos faz pensar num certo tipo de cegueira... e não só.
Gostei. Parabéns!

Um abraço

Amaral disse...

Meg
Obrigado. Fico contente por lhe ter agradado.
Abraço

Delfim peixoto disse...

Lindo... o melhor poema que te li até hoje... fiquei "colado"! Genialidade pura. DEfinitivamente, aqui se retrata a sensibilidade de quem escreve ( genialmente) e sente o que o mundo nos dá de presente ora bonito, ora menos agradável. (Poderia ser gravado com voz e colocado aqui para quem como no poema acordou nesse escuro)
Abraço

Amaral disse...

Delfim
Muito obrigado pelo elogio, muito mais vindo de alguém qualificado como tu.
Abraço e bom fim-de-semana

Deusa Odoyá disse...

Olá meu estimado Amaral.
um belo e supremo poema.
As vezes precisamos acordar desse obscuro.
Parabéns pela sua sensibilidade .
As vezes na vida nos tornamos cegos,pelo bem de nós mesmos.
Beijos e luzes para tí.

Regina Coeli.

Obrigado por sua visita.

Morgado disse...

Gostei muito,nunca te tinha imaginado como poeta ,mas hà sempre algo que se esconde dentro de nös!

Parabens