segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Remorsos para quem não ler

Mais uma sugestão literária. Mais um autor português. Mais um Livro premiado. Por ordem: “o remorso de Baltazar serapião” (Quidnovi, 174 páginas), da autoria de Valter Hugo Mãe, vencedor do Prémio José Saramago 2007. Novamente estamos na presença de um livro todo ele escrito em minúscula.
Depois de ter apresentado aqui “o apocalipse dos trabalhadores”, que me deixou expectante quanto à prosa de VHM, li este belíssimo livro e confirmei todas as expectativas. A história centra-sena Idade Média brutal e miserável. Encontramos o protagonista, Baltazar Serapião, que se casa com a mulher dos seus sonhos, Ermesinda, e, tal como o pai fizera antes com a mãe e com a vaca Sarga, fêmeas irmanadas em condição e estatuto familiar, leva muito a sério a administração da sua educação. Baltazar olha a mulher como um ser a necessitar de educação, não um ser qualquer, mas um ser que lhe pertence. O senhor feudal, dom Afonso, pondo os olhos sobre a jovem esposa, não desiste de exercer sobre ela os seus direitos. Baltazar sente-se encornado e quer vingança. Como nada consegue no seu senhor vinga-se na mulher. Entregue aos desmandos do poder e do destino, Baltazar será forçado a seguir por caminhos que o levarão ao encontro da bruxaria, da possessão e do remorso.Com um notável trabalho de linguagem que recria poeticamente a língua arcaica e rude do povo, este livro é uma tenebrosa metáfora da violência doméstica, violência feminina, e do poder sinistro do amor.
Recomendo vivamente esta bela obra.

(José Amaral)

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Grande Poeta

Rómulo de Carvalho, mais conhecido pelo pseudónimo de António Gedeão, nasceu em Lisboa, a 24 de Novembro de 1906 e faleceu igualmente na capital, a 19 de Fevereiro de 1997. Foi um excelente professor, pedagogo, investigador de História da ciência em Portugal, divulgador da ciência e poeta.
Aqui fica um dos seus poemas mais conhecidos:

(Imagem retirada da Internet)

Pedra filosofal



Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.



(José Amaral)

domingo, 16 de novembro de 2008

Uma leitura sem fim...

De volta às sugestões literárias, trago aqui hoje o volume II dessa bela obra de Ken Follet: Um Mundo Sem Fim (Editorial Presença, 588 páginas).
Voltamos a Kingsbridge – donde não saímos desde o 1º volume de “Os Pilares da Terra” – para seguir esta narrativa apaixonante, cheia de amores, ódios, vinganças. A cidade, que ficará conhecida pelo escarlate de Kingsbridge, é assolada pela Peste.
As intrigas continuam no Priorado, onde Godwin chega a prior, acolitado por um não escrupuloso Philemon. Com a chegada da Peste os monges fogem e será Caris a ser nomeada prioresa.
Merthin vai para Florença, após a recusa de Caris em abandonara a vida conventual. Aí casa-se e tem uma filha. A Peste leva-lhe a mulher, mas poupa-o a ele e à filha. Regressa a Kingsbridge. Neste regresso vai manter uma vida de casado com Caris. O irmão Ralph trona-se conde de Shiring. Um conde irascível e vingativo. Não tem problemas em violar mulheres, como foi o caso de Gwenda de quem terá um filho. Wilfric, o grande rival de Ralph, vai criá-lo sem saber que era filho do conde. O feitiço vira-se contra o feiticeiro e será Sam, o filho do conde, que o matará sem saber que estava a matar o pai.
Também Merthin atinge os seus objectivos. Acaba por se casar com Caris e constrói a torre mais alta de Inglaterra. Também ele não foge às polémicas. Phillipa que enviuvara casa-se, sob chantagem, com Ralhp, mas terá um filho de Merthin irmão de Ralph. Só eles os dois e Caris é que sabem.
Por fim, o segredo tão bem guardado desde a infância dos quatro principais intervenientes. O irmão Thomas morre e Merthin descobre que ele enterrara uma carta que continha um segredo: o velho rei Eduardo não tinha morrido; encenou a sua morte; a rainha nada disse, pois toda a Europa soube da morte do rei… se este segredo se soubesse poder-se-ia tornar uma pedra no sapato do novo rei (filho do velho rei) e de toda a Inglaterra.
Muitos são os argumentos para ler, e não perder, mais este volume desta emocionante história.

(José Amaral)

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Sabedoria Popular

António Aleixo, poeta popular português, nasceu em Vila Real de Santo António, a 18 de Fevereiro de 1899 e faleceu em Loulé, a 16 de Novembro de 1949. As suas quadras são de uma sabedoria profunda. Popular? Certamente, mas nem por isso de se deitar fora. Muito pelo contrário. Como dizia Gil Vicente “ridendo castigat mores”. Também as quadras aleixianas nos dizem verdades a rir.
Aqui ficam alguns exemplos:



P'ra mentira ser segura

e atingir profundidade,

tem que trazer à mistura
qualquer coisa de verdade.

Eu não sei porque razão
certos homens, a meu ver,
quanto mais pequenos são
maiores querem parecer.

Uma mosca sem valor
poisa, c'o a mesma alegria,
na careca de um doutor
como em qualquer porcaria.

Entre leigos ou letrados,

fala só de vez em quando,
que nós, às vezes, calados,
dizemos mais que falando.

Sei que umas quadras são conselhos
que vos dou de boa fé;
outras são finos espelhos
onde o leitor vê quem é.

Quando não tenhas à mão
outro livro mais distinto,
lê estes versos que são
filhos da mágoa que sinto.

Mentiu com habilidade,

fez quantas mentiras quis;
agora fala verdade,
ninguém crê no que ele diz

Sei que pareço um ladrão...

mas há muitos que eu conheço
que, não parecendo o que são,
são aquilo que eu pareço.

Não sou esperto nem bruto,

nem bem nem mal educado:
sou simplesmente o produto
do meio em que fui criado.

Vemos gente bem vestida,

no aspecto desassombrada;
são tudo ilusões da vida,
tudo é miséria dourada.

Peço às altas competências

Perdão, porque mal sei ler,
P’ra aquelas deficiências
Que os meus versos possam ter.

Quando os Homens se convençam

Que à força nada se faz,
Serão f’lizes os que pensam
Num mundo de amor e paz.

Julgando um dever cumprir,

Sem descer no meu critério,
- Digo verdades a rir
Aos que me mentem a sério!

(José Amaral)

sábado, 8 de novembro de 2008

Luta por uma causa

Mais um dia D para a Educação e para os professores. Hoje, 8 de Novembro de 2008, em Lisboa esperam-se mais de 100 mil professores numa manifestação gigantesca, semelhante à de Março passado. Será um mar imenso de professores. Muitos são aqueles que, por opção ou por imperativos de força maior, não poderão estar presentes, mas nem por isso deixarão de estar presentes (em espírito) e nem por isso deixarão de lutar por esta causa.
A concentração dos professores terá início às 14:30 no Terreiro do Paço, em Lisboa, onde irá decorrer um plenário cerca de meia-hora depois. Segue-se Rossio, Restauradores, Avenida da Liberdade e Marquês de Pombal. Aí deverá ser aprovada uma resolução a exigir ao Governo a suspensão da avaliação de desempenho e o início de novas negociações para alterar o modelo definido pelo Ministério da Educação.
Ontem, a presidente do PSD, Manuela Ferreira Leite, defendeu a suspensão do actual modelo de avaliação dos professores e a aprovação de um novo modelo de avaliação externa e sem quotas administrativas.
Já vai sendo tempo de o M. E. deixar de lado as teimosias e as imposições e de constatar que este modelo não é funcional. Além de muito burocrático e extremamente injusto. O sucesso dos alunos não pode ser leitmotiv para um professor ser avaliado. Assim, o mais fácil é passarem todos, e há sucesso e o professor obtém uma nota boa. «A avaliação tem de ser externa, retirando das escolas e dos docentes a carga burocrática e conflitual que os desviam da sua função primordial que é ensinar. A avaliação tem de procurar a efectiva valorização do mérito e da excelência, devendo por isso pôr-se fim às quotas administrativas criadas por este Governo» defende, e bem, a líder do PSD. Mais defende que é preciso também «acabar com a divisão da carreira docente, iníqua e geradora de injustiças, entre professores titulares e professores que acabam por ser classificados de segunda».
Esta causa não pode esmorecer até que seja reposta a justiça. Os professores não temem ser avaliados, sempre o fomos (bem ou mal era o modelo que existia – que estava gasto), mas que sejamos avaliados por um modelo justo.

(José Amaral)

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Poema


Sei os teus seios.
Sei-os de cor.

Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.

Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.

Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!

Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!

Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?

Quantas vezes
Interrogastes, ao espelho, os seios?

Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!

Quantos seios ficaram por amar?

Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!

Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!

Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas...

Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.

Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...

Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!

Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...

O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"

Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!

Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.

Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!

Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!

"Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"

Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejastes, que perseguistes
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")

De repente a podridão do seio.

Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...

Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...

Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...

Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!

Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.

Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser.

(Alexandre O’Neill)

sábado, 1 de novembro de 2008

Dias de Reflexão

A Igreja Católica festeja a 1 de Novembro (feriado) a festa de Todos-os-Santos (Festum omnium sanctorum). Celebra-se em honra de todos os santos e mártires, conhecidos ou não. No dia seguinte, 2 de Novembro, a Igreja Católica celebra o Dia dos Fiéis Defuntos ou Dia de Finados. Desde o século II, os cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires para rezar pelos que morreram. No século V, a Igreja dedicava um dia do ano para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava. No século XIII esse dia anual passa a ser comemorado em 2 de Novembro, porque a 1 de Novembro é a Festa de Todos os Santos.
Nestes dias de reflexão e recolhimento aqui vos deixo um belíssimo soneto da autoria de Vasco Graça Moura:



soneto do amor e da morte

quando eu morrer murmura esta canção

que escrevo para ti. quando eu morrer

fica junto de mim, não queiras ver

as aves pardas do anoitecer

a revoar na minha solidão.

quando eu morrer segura a minha mão,

põe os olhos nos meus se puder ser,

se inda neles a luz esmorecer,

e diz do nosso amor como se não

tivesse de acabar, sempre a doer,

sempre a doer de tanta perfeição

que ao deixar de bater-me o coração

fique por nós o teu inda a bater,

quando eu morrer segura a minha mão.


(José Amaral)

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Peditório Nacional


A Liga Portuguesa Contra o Cancro leva a efeito mais um peditório. Para fazer face a uma doença que atinge mais de 20.000 portugueses, a LPCC realiza o seu peditório anual nos dias 1, 2, 3 e 4 de Novembro, por todo o território nacional. Em Portugal, os cancros de maior incidência são o da mama, pele, próstata, cólon, recto, estômago, colo do útero e pulmão. Anualmente surgem 4500 novos casos de cancro da mama, em Portugal.
Mais de cinco mil voluntários, espalhados pelo país, apoiam esta causa. De acordo com Manuela Rilvas, presidente da LPCC, “o peditório anual representa cerca de 90 por cento das receitas da Liga, que não tem qualquer subsídio para o desenvolvimento das suas actividades”.
O montante recolhido neste peditório nacional será aplicado em actividades de rastreio do cancro da mama, investigação, acção social e de acompanhamento de doentes e familiares, campanhas de informação e prevenção, cuidados paliativos, luta antitabágica, entre outros projectos.
Manuela Rilvas salienta "Nós precisamos de ajuda. É fundamental que as pessoas colaborem nesta iniciativa para que possamos fazer face a uma doença tão cruel como é o cancro".
Fundada em 1941, por proposta do Prof. Francisco Gentil, a Liga Portuguesa Contra o Cancro tem como objectivo promover a prevenção primária e secundária do cancro, o apoio social e a humanização da assistência ao doente oncológico e a formação e investigação em oncologia.
(
Liga Portuguesa Contra o Cancro).
Eis uma causa na qual todos nós devemos participar. O nosso contributo é essencial. Quer seja pelo voluntariado, quer seja pelos nossos donativos não devemos deixar de colaborar nesta causa.

(José Amaral)

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Poema




AlvoreS

No alvor da aurora
abri os olhos, mas não acordei.
Sentia-me sorumbático,
perdido na imensidão
de um deserto de acalmia
de brisas suaves
de pensativos e expectantes
desejos incontidos
incontados
“in com tudos”.

Bateram, suavemente,
na madeira das minhas pálpebras
perguntando se morava,
naqueles “berlindes observantes”,
alguém.
Não, não morava lá ninguém.
Perdão!
Morava um... invisual.

O meu mundo,
sempre com a luz eléctrica cortada
(maldita companhia,
só pensa em impostos)
era negro;
de um negro lindo,
para mim,
um negro acetinado
que me protegia.

Agradeci aos Céus
o facto de ser invisual.
Não, não é masoquismo!!!

Assim não sou obrigado
a ver violência,
miséria,
ódio, ...nada.

Chamam-me cego,
alguns ceguinho,
eu sei.
Quero que saibais,
irmãos:
- «Vejo melhor, eu,
na minha cegueira,
que vós na vossa verborreia prepotente».


(in “Poder da Díctamo”, José Amaral)

domingo, 26 de outubro de 2008

Já foi há 10 anos...

Faz hoje dez anos, 26 de Outubro, que morreu um dos maiores escritores portugueses. Dez anos! Falo de José Cardoso Pires, nascido a 2 de Outubro de 1925, em Vila de Rei e falecido em Outubro de 1998, em Lisboa cidade que ele escolheu para viver.
A sua experiência da vida boémia, da rua e da noite, resultou num conhecimento que transpõe para alguns dos seus textos (p. exemplo "Alexandra Alpha"). Foi oficial da Marinha Mercante e realizou esporadicamente trabalhos como jornalista e redactor de publicidade até se dedicar definitivamente à escrita. A sua obra é vastíssima, assim como os prémios que recebeu. Nada melhor que deixar aqui um excerto (de “A Balada da Praia do Cães”) para nos recordar a escrita deste vulto da literatura portuguesa.

«[...] Às vezes pasmo, Melanie, com a exactidão com que estes momentos me vêm à memória. Estou a ver o elevador, é como se tivesse sido ontem. O portão de grades trabalhadas em cobre, o guarda-vento de vidros foscos com umas flores lavradas que pareciam jarros do oriente. E os espelhos aos lados? E o banquinho de veludo na parede do fundo, tão virginal, tão romântico? Oh, era uma cestinha de arcanjos, aquele elevador, todo em ouros e brancos esmaltados. Mas o inesquecível era a máscara do diabo que havia no tecto a olhar cá para baixo! Assustava e enternecia. Tinha uns corninhos de fauno, saídos do conjunto da figura que era em relevo dourado e com uma mascarilha vermelha. Tantas minúcias, eu bem digo…Não te parece estranho?E todavia tudo se passou fora do tempo e do espaço! Tudo, ma chèrie, Tudo! Ainda mal tínhamos fechado a porta já o Gaston-Philippe se colava a mim a percorrer-me desvairadamente com as mãos. Contornava-me, cingia-me com um braço e procurava-me as coxas e as nádegas por baixo da roupa. Eu própria levantei o vestido, colando-me mais a ele, e imagina a surpresa que o tomou quando sentiu nos dedos a verdade do meu ventre!»

(José Amaral)

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

MUDANÇA DA HORA

(Imagem retirada da Internet)

Segundo informação do Observatório Astronómico de Lisboa e, em conformidade com a legislação, a hora legal em Portugal continental: será adiantada de 60 minutos à 1 hora de tempo legal (1 hora UTC) do dia 30 de Março e atrasada de 60 minutos às 2 horas de tempo legal (1 hora UTC) do dia 26 de Outubro.
Assim, e desta forma, este fim-de-semana vamos poder dormir mais uma hora. Quando forem 2 horas da madrugada de Domingo, os ponteiros devem atrasar para a 1 hora.
Convém não esquecer para não andarmos trocados nem nos esquecermos dos nossos compromissos.


(José Amaral)

quinta-feira, 23 de outubro de 2008


Dez réis de esperança


Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.

(António Gedeão)

sábado, 18 de outubro de 2008

A saga continua...

Volto às sugestões literárias. O autor não é desconhecido: Ken Follet. À semelhança de "Os Pilares da Terra", Ken Follett volta ao registo do romance histórico, numa obra dividida em dois volumes. Desta feita trata-se de Um mundo sem fim – volume I (Editorial Presença, 581 páginas). O autor regressa à cidade de Kingsbridge, mas com um intervalo de dois séculos. Recorre a elementos comuns do primeiro livro e dá vida a descendentes de algumas das personagens de “Os Pilares da Terra”.
No dia 1 de Novembro de 1327, quatro crianças presenciam a morte de dois homens por um cavaleiro. Três delas fogem com medo, ao passo que uma se mantém no local e ajuda o cavaleiro ferido a recompor-se e a esconder uma carta que contém informação secreta que não pode ser revelada enquanto ele for vivo. Estas crianças quando chegam à idade adulta viverão sempre na sombra daquelas mortes inexplicáveis que presenciaram naquele dia fatídico. Ken Follet volta a preencher este romance de amor (uns bem sucedidos, outros não correspondidos), ódio, ambição e vingança. É frequente recorrer-se a truques baixos para se alcançar os fins desejados. Merthin, Ralph, Caris e Gwenda ficarão marcados pelo tempo em que vivem.
A queda da ponte que faz a ligação com Kingsbridge torna-se num dos centros fulcrais desta acção. Mas não só… a eleição do prior Godwyn… o amor entre Merthin e Caris… o seu quase casamento… a inesperada ida de Caris para freira para não ser executada como bruxa…
Este primeiro volume lê-se com o mesmo agrado que os anteriores volumes desta saga. A vida medieval é retratada com realismo nu e cru, fazendo-nos vivenciar a vidas das personagens. Recomendo vivamente a leitura deste livro.


(José Amaral)

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Humor

(imagem retirada da Internet)

Viver não custa, custa é saber viver.
Que seria da vida sem humor!...
(José Amaral)


segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Poesia de bandeira

Manuel Bandeira nasceu em Recife, a 19 de Abril de 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, a 13 de Outubro de 1968. Poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor brasileiro, Manuel Bandeira é um dos nomes mais sonantes da Literatura Brasileira.
Considera-se que Bandeira faça parte da geração de 22 da literatura moderna brasileira.


Desencanto



Eu faço versos como quem chora
De desalento... de desencanto...
Fecha o meu livro, se por agora
Não tens motivo nenhum de pranto.

Meu verso é sangue. Volúpia ardente...
Tristeza esparsa... remorso vão...
Dói-me nas veias. Amargo e quente,
Cai, gota a gota, do coração.
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
Deixando um acre sabor na boca.
- Eu faço versos como quem morre.


(José Amaral)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

A voz

Jacques Brel nasceu em Schaarbeek, Bélgica a 8 de Abril de 1929 e faleceu em Bobigny, França a 9 de Outubro de 1978. Autor de canções, compositor e cantor belga francófono. Este cantor que se consumia em palco tinha uma voz característica. As suas letras mostravam toda a “raça” do cantor, transposta para os palcos. Aqui fica a composição “Ne me quitte pas”.

Ne me quitte pas

Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus
Et le temps perdu
À savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois
À coups de pourquoi
Le coeur du bonheure
Ne me quitte pas


Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays
Où il ne pleut pas
Je creuserai la terre
Jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps
D'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi
Où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants là
Qui ont vu deux fois
Leurs coeurs s'embrasser
Je te raconterai
L'histoire de ce roi
Mort de n'avoir pas
Pu te rencontrer
Ne me quitte pas


On a vu souvent
Rejaillir le feu
De l'ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir
Ne s'épousent-ils pas
Ne me quite pas
Ne me quite pas


Je ne veux plus pleurer
Je ne veux plus parler
Je me cacherai là
À te regarder
Danser et sourire
Et à t'écouter
Chanter et puis rire
Laisse-moi devenir
L'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas

(José Amaral)

sábado, 4 de outubro de 2008

DIA MUNDIAL DO PROFESSOR

A 5 de Outubro celebra-se o Dia Mundial do Professor. Este dia celebra-se desde que a UNESCO resolveu associar esta comemoração à mesma data em que, em 1966, uma conferência intergovernamental, organizada conjuntamente pela UNESCO e pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), aprovou uma “Recomendação” respeitante ao estatuto dos professores. A primeira vez que foi assinalada a data foi em 1993, em Genève, com a presença de Federico Mayor, alto responsável da UNESCO. Os professores são mais de 60 milhões em todo o mundo e a UNESCO reconhece que se trata de um grupo profissional fundamental sem o qual “não pode haver nem desenvolvimento durável, nem coesão social, nem paz”.
Para este ano o slogan escolhido é: OS PROFESSORES CONTAM! Esta afirmação relembra o trabalho diário dos professores e educadores na construção de um mundo melhor.


Em Portugal será que os professores são tratados com o respeito merecido? As sondagens dizem que são a classe em quem os portugueses mais confiam, mas os governantes responsáveis pela Educação no nosso país nem sempre os tratam como devem. Vale a pena ler o artigo de José Gil (revista “Visão” – n.º 813 – 2 de Outubro de 2008) sob o título “A domesticação da sociedade”. Como o artigo é um pouco extenso apenas transcrevo o último parágrafo:
«No processo de domesticação da sociedade, a teimosia do primeiro-ministro e da sua ministra da Educação representam muito mais do que simples traços psicológicos. São técnicas terríveis de dominação, de castração e de esmagamento, e de fabricação de subjectividades obedientes. Conviria chamar a este mecanismo tão eficaz, “a desactivação da acção”. É a não-inscrição elevada ao estatuto sofisticado de uma técnica política, à maneira de certos processos psicóticos».

(José Amaral)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

"Instrument de la Paix..."

São Francisco de Assis nasceu em Assis, a 26 de Setembro de 1181 e faleceu a 3 de Outubro de 1226. Frade católico, fundou a "Ordem dos Frades Menores", mais conhecidos como Franciscanos. Foi canonizado em 1228 pela Igreja Católica.
Um dos textos mais conhecidos de S. Francisco é a “Oração de São Francisco”. Aqui fica o texto na sua versão original (Francês) e numa das traduções portuguesas mais conhecidas:


Belle prière à faire pendant la Messe

Seigneur, faites de moi un instrument de votre paix.
Là où il y a de la haine, que je mette l’amour.
Là où il y a l’offense, que je mette le pardon.
Là où il y a la discorde, que je mette l’union.
Là où il y a l’erreur, que je mette la vérité.
Là où il y a le doute, que je mette la foi.
Là où il y a le désespoir, que je mette l’espérance.
Là où il y a les ténèbres, que je mette votre lumière.
Là où il y a la tristesse, que je mette la joie.
Ô Maître, que je ne cherche pas tant à être consolé qu’à consoler, à être compris qu’à comprendre, à être aimé qu’à aimer, car c’est en donnant qu’on reçoit, c’est en s’oubliant qu’on trouve, c’est en pardonnant qu’on est pardonné, c’est en mourant qu’on ressuscite à l’éternelle vie.

(Pintura de El Greco - Imagem retirada da Internet)


(Senhor: Fazei de mim um instrumento de vossa Paz!
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!
Ó Mestre,
fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
Perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna!
Amem.)

(José Amaral)

sábado, 27 de setembro de 2008

O actor norte-americano Paul Newman morreu aos 83 anos. O também realizador, argumentista, produtor e conhecido pela sua defesa pelas causas humanitárias anunciou a sua saída do mundo do cinema no ano passado, pouco antes de confirmar publicamente que se encontrava doente com um cancro de pulmão.
A morte do actor foi confirmada pela sua porta-voz, Marni Tomljanovic, citada pela CNN e BBC. Newman morreu ontem, cerca de um mês depois de o próprio ter decidido interromper os tratamentos de quimioterapia a que estava a ser sujeito num hospital de Nova Iorque e pedido à família para ir para casa.
Com mais de 60 participações em filmes e dezenas de outras em séries televisivas, Newman recebeu dez nomeações para os Óscares ao longo da sua carreira, tendo finalmente sido distinguido em 1987 com o Óscar para melhor actor principal pela sua interpretação em “A Cor do Dinheiro”. Foi ainda distinguido com dezenas de outros prémios,
A sua última aparição no grande ecrã foi ao lado de Tom Hanks, no filme “Caminho para a Perdição” (2002), do realizador Sam Mendes.
Nascido num subúrbio de Cleveland, a 26 de Janeiro de 1925, foi aos 26 anos que começou a dar os primeiros passos na actuação. Ao longo dos 50 anos que seguiram, Newman interpretou papéis memoráveis em filmes como “Gata em Telhado de Zinco Quente” (1958), “A Vida é um Jogo” (1961), “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969) ou “The Sting” (1973). Além da carreira de actor, Newman realizou ainda quatro filmes, todos com a participação da mulher Joanne Woodward, com quem estava casado desde 1958,
O norte-americano deixou ainda a sua marca através da Newman's Own Foundation, com a qual financiava várias organizações de caridade e humanitárias. Newman fundou ainda a Hole in the Wall, uma organização que oferecia férias de Verão a crianças de todo mundo que sofriam de doenças graves.
Robert Forrester, vice-presidente da Newman's Own Foundation, sublinhou num comunicado divulgado hoje que o actor “o seu coração e alma foram dedicados ajudar a fazer do mundo um melhor lugar para todos”.
Newman tinha ainda uma enorme paixão pelas quatro rodas. Em 1979, na altura com 54 anos, levou um Porsche 935 da equipa Dick Barbour ao segundo lugar da mítica prova francesa as 24 horas de Le Mans, uma das maiores provas de resistência.
Aos 70 anos, tornou-se o piloto mais velho a fazer parte da equipa vencedora das 24 horas de Daytona, em 1995.

(27.09.2008 - in “PÚBLICO”)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Outono

Já uma vez aqui publiquei este poema, mas em jeito de recepção ao Outono que agora começa volto a publicá-lo.

OutonO

Era Outono!

Passei por uma ruazita;
num pobre banco de madeira,
um “pobre” idoso sentado.
Tinha uma lágrima,
no canto do olho,
prestes a escorrer pela sua face
já gasta pelas agruras da vida.

Era Outono!

Nesse preciso momento reparei,
na única árvore existente.
Estava praticamente despida.
Tinha a sua beleza,
tal como o velhinho;
uma única folha
se mantinha incólume
à passagem do tempo.

Era Outono!

O idoso baixou a cabeça.
O ramo da árvore,
onde se encontrava a solitária folha,
buliu.

Era Outono!

Quando nada o fazia prever,
o sopro da vida,
gélido e aterrador,
percorreu a ruazita.
Foi fatal!
Para a folha que... caiu.
Para o idoso que... faleceu.

Era Outono!...
(in "Poder da Díctamo", José Amaral)

domingo, 21 de setembro de 2008

Poema

26


Já não me importa saber quem sou
nem o que faço aqui
importa-me saber, meu País,
que mais queres que faça por ti?…

Em Abril saí à rua,
onde tive meus filhos
cuja mãe é a madrugada,
redobrados ficaram os cadilhos,
mas em troca não me deste nada.

Plantaste-me na mão
arma e cravos
que não brinquedos e alimento,
meus filhos choram noite inteira
e eu sofro calado meu tormento.
Meus pés pisam o joio e acordam,
sangrando lamúrias,
de um sonho que espalhaste
como trigo que nunca deu grão.


(in “25 de Abril – 34 Anos”, José Amaral)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Amador...


Amador sem coisa amada


Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.

(António Gedeão)

domingo, 14 de setembro de 2008

Recordar é viver...

Mamma Mia! foi um dos musicais mais vistos e aplaudidos (por 30 milhões de pessoas em 170 cidades pelo mundo), ao som da música dos Abba. Agora chegou a vez do filme. A história do filme não é de todo inovadora, no entanto o filme vale pelas imagins idílicas, pela musicalidade e pelas interpretações, nomeadamente, as femininas. Vale a pena ver este filme que mais não seja para recordar grandes êxitos desse fabuloso quarteto sueco formado por volta de 1970-1972 pelos músicos e compositores Björn Ulvaeus e Benny Andersson, e pelas vocalistas Agnetha Fältskog e Anni-Frid Lyngstad. Ao longo do filme podemos recordar muitos dos seus êxitos, tais como: "Honey, Honey", "Mamma Mia""Take a Chance on Me", "Dancing Queen", "Chiquitita"…
Vale a pena ver!
Aqui fica a sinopse do filme:
«Uma mãe solteira, independente, que tem um pequeno hotel numa idílica ilha grega, Donna (Meryl Streep), está prestes a ter de deixar partir Sophie (Amanda Seyfried), a filha que criou sozinha. Para o casamento de Sophie, Donna convidou duas das suas melhores amigas - a prática e hilariante Rosie (Julie Walters) e a multi-divorciada Tanya (Christine Baranski) - as quais pertenciam à sua banda de outrora, «Donna and the Dynamos». Mas Sophie, secretamente, também convidou três pessoas (Colin Firth, Pierce Brosnan e Stellan Skarsgard). Na tentativa de encontrar o seu pai, ao qual estaria destinado levar a noiva ao altar, ela convidou três dos homens do passado de Donna. Em cerca de 24 horas mágicas e caóticas, surgirão novos romances e renascerão antigos, naquela que parece a ilha de todas as possibilidades.»

(José Amaral)

sábado, 13 de setembro de 2008


Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

(Eugénio de Andrade)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Má memória

Há imagens que não se apagam das nossas memórias. Marcam-nos, horrorizam-nos e assustam-nos.
A 11 de Setembro de 2001 (exactamente às 8h48m e 9h03m locais), as duas torres do maior conjunto comercial do mundo, o World Trade Center, em Nova Iorque, vieram abaixo horas após terem sido parcialmente destruídas por duas aeronaves comerciais Boeing 767, com um total de 157 passageiros a bordo. Uma outra aeronave Boeing 757 da American Airlines atingiu em cheio o prédio do Pentágono, destruindo parte do conjunto e matando muitos funcionários do governo federal americano (exactamente às 9h43m). Outra aeronave Boeing 757 foi sequestrada e derrubada, às 10h10m, caindo em Shanksville, a 130 quilómetros ao sul de Pittsburgh, na Pensilvânia. No total foram quatro sequestros simultâneos, todos perfeitamente estudados e friamente consumados por terroristas árabes.

(José Amaral)

domingo, 7 de setembro de 2008

apocalipse literário

Mais uma sugestão literária. Desta feita de novo um autor português. Confesso que não conhecia a prosa do autor, pois apenas conhecia a poesia. Falo de Valter Hugo Mãe que nasceu em Angola em 1971. Da vasta obra publicada destaca-se o romance “o remorso de baltazar serapião”, vencedor do Prémio José Saramago 2007.
O livro que sugiro é o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi, 182 páginas). É uma obra que se lê num fôlego e com muito agrado, já que se trata de uma narrativa “movida a vapor”, cheia de ritmo, carregada de humor à mistura da tragédia humana. Um pormenor que perpassa todo o livro: está escrito em letras minúsculas do princípio ao fim.
Aqui fica a sinopse do livro:
«Maria da graça – mulher-a-dias em Bragança esquecida do mundo – tem a ambição, não tão secreta como isso, de morrer de amor; e por essa razão sonha recorrentemente com a entrada no paraíso, onde vai à procura do senhor ferreira, seu antigo patrão, que, apesar de sovina e abusador, lhe falou de Goya, Rilke, Bergman ou Mozart como homens que impressionaram o próprio deus. Mas às portas do céu acotovelam-se mercadores de souvenirs em brigas constantes e São Pedro não faz mais do que a enxotar dali a cada visita.
Tal como Maria da Graça, todas as personagens deste livro buscam o seu paraíso; e, aflitas com a esperança, ou esperança nenhuma, de um dia serem felizes, acham que a felicidade vale qualquer risco, nem que seja para as lançar alegremente no abismo.
O apocalipse dos trabalhadores é um retrato do nosso tempo, feito da precariedade e dessa esperança difícil. Um retrato desenhado através de duas mulheres-a-dias, um reformado e um jovem ucraniano que reflectem sobre os caminhos sinuosos do engenho e da vontade humana num Portugal com cada vez mais imigrantes e sobre a forma como isso parece perturbar a sociedade.»

(José Amaral)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Mais um apontamento literário. De novo uma obra de Dino Buzzati. Depois de “O Deserto dos Tártaros” desta vez sugiro A Derrocada da Baliverna (Cavalo de Ferro, 335 páginas). É um registo diferente da anterior obra do autor – aqui sugerida – mas com a mesma qualidade. Refira-se que esta editora tem apostado na literatura de qualidade e nos grandes nomes. Segundo o “The Times” «Buzzati é um dos pioneiros que, a par de Kafka e de Dostoievsky, abriram novas fronteiras para a literatura moderna».
Esta obra é uma colectânea de trinta e sete contos de grande qualidade. Logo a começar pela história que dá o título ao livro, um homem vulgar decide-se a escalar clandestinamente a parede da Baliverna, um velho mosteiro degradado e transformado em refúgio de vagabundos e bandidos. Essa acção imponderada é punida com a derrocada de todo o edifício, provocando o terror do castigo subsequente. Mas não só este como muitos outros contos dos quais destaco “O Cão que viu Deus”, “O Escuro”, “Os cinco irmãos”… Em todos estes contos Buzzati dá-nos uma visão fantástica do mundo. Neles vemos como o ser humano é, por natureza, um ser angustiado.
É uma obra que recomendo vivamente!

(José Amaral)

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Regresso

Depois de umas merecidas férias... o regresso. Ao convívio dos meus leitores e, também, ao trabalho...


Sorriso


Ali estavas tu,
com uns grandes olhos,
verdes,
mas sempre sempre
tristes.

São o reflexo
do mundo
em que vives.
Esse mundo tão real
que chegava
a sobrepor-se
à imaginação.
Bem queres,
com o teu sorriso,
alegrar o teu
sempre sempre triste
olhar.

Não consegues,
já que os olhos
vêem
o que o sorriso
procura disfarçar!


(in "Outonalidades", José Amaral)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Deserto delicioso

Numa incursão, nestas férias, por uma livraria deparei-me, e em boa hora, com um expositor dedicado a Dino Buzzati. A escolha era variada, mas num primeiro momento chamou-me a atenção o livro O Deserto dos Tártaros (Cavalo de Ferro, 254 páginas). Refira-se que a obra de Dino Buzzati venceu entre outros os prémios Strega e Napoli.
Esta é uma daquelas obras aclamadas pela crítica e que lemos com agrado. Por vezes o relato parece cair numa monotonia, mas mesmo assim em momento nenhum pensamos em deixar a obra de lado. Bem pelo contrário, apetece-nos descobrir o que se seguirá.
A história ganha vida num deserto. Estamos na presença de Giovanni Drogo, recém-nomeado oficial. Destacado para a fortaleza Bastiani, Drogo aproxima-se com a sensação de que está prestes a casar-se com uma total solidão. Drogo deixa tudo para trás: a família, os prazeres da cidade, as mulheres… Drogo escolhe viver longe de tudo, embora, chegado à fortaleza quer “fugir de lá”. A fortaleza, enorme, amarela, situada nos limites do deserto, outrora reino dos míticos Tártaros, acolhe-o na sua misteriosa imponência. Os anos vão passando e Drogo vai-se habituando àquele viver monótono, com um único pensamento: o dia em que o inimigo virá para atacar a fortaleza. Muitas vezes é com essa sensação que fica quem vive na fortaleza, pois são sombras e objectos fantasmagóricos que assaltam o dia-a-dia de quem ali vive. É neste pressuposto que Giovanni sonha com a invasão dos tártaros e com a hipótese de fazer algo grandioso, ainda que morra na batalha. O tempo passa, os anos passam e a esperança de Drogo também passa. Drogo termina a sua existência humana e nós, leitores, sentimos um vazio, uma certa desilusão porque acabou aquela narrativa que nos fazia, por momentos, viver com Drogo na fortaleza Bastiani.

(José Amaral)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Mais qualidade literária

No seguimento do post anterior (e com as férias quase a dizerem adeus) trago aqui a referência a O Homem sem Qualidades II (Dom Quixote, 451 páginas), de Robert Musil.
No seguimento do Volume I (lembro que este romance é constituído por três volumes, mas em Portugal só estão, para já, editados dois) estamos na presença da continuação de um romance fantástico. Este segundo volume lê-se com agrado redobrado.
Como podemos ver na contracapa deste volume podemos ler, pela escrita de João Barrento que assina a tradução, que «Musil legou-nos alguns dos mais significativos fragmentos de literatura do século, cujos traços mais salientes são a complexidade dos seus perfis anímicos e o rigor da observação, da análise e da reflexão – uma obra que se orienta pelos princípios, contidos na fórmula lapidar que ele próprio cunhou, da exactidão e da alma». Por tudo isto vale mesmo a pena ler esta belíssima obra.

(José Amaral)

domingo, 17 de agosto de 2008

Qualidade literária

Embora de férias… no que à leitura diz respeito, nem por isso. Desta vez aporto aqui um belíssimo livro cujo título suscita a maior das curiosidades. Trata-se do romance de Robert Musil, O Homem sem Qualidades I (Dom Quixote, 843 páginas). Louve-se, igualmente, a tradução portuguesa da autoria de João Barrento.
É um livro muito bem escrito, numa escrita profunda que nos faz pensar. O número de páginas não deve ser motivo para nos afastar da leitura, mas, pelo contrário, abrir-nos a vontade para o ler.

Aqui fica a sinopse:
«Esta é uma obra singular e única no panorama da ficção do século XX.
Mais do que um romance, O Homem sem Qualidades é o maior projecto romanesco, deliberada e quase necessariamente inconcluso e inconclusivo, da literatura do século passado. Um rio sem limites nem margens, que não desagua em nenhum mar conhecido, objecto inclassificável, para lá do “literário” e da ficção.
No momento da morte inesperada de Musil em 15 de Abril de 1942, no exílio de Genebra, O Homem sem Qualidades é verdadeiramente o “livro por vir”, aquele cuja essência – no seu protagonista centrado, no processo da sua génese, no cerne do seu pensamento – é a de um laboratório de possibilidades que o transformarão na obra aberta por excelência e na “tarefa criadora [mais] desmedida” da história da literatura moderna. O Homem sem Qualidades será, durante mais de duas décadas, a obra em processo de criação e transformação que se autonomiza e se impõe de forma obsessiva e implacável ao próprio criador, aprendiz de feiticeiro que a controla cada vez menos à medida que ela se vai transformando numa rede rizomática de possibilidades de crescimento e de perspectivas de finalização sempre adiada, que parece querer reflectir o próprio feixe aleatório de possibilidades que é aquilo a que chamamos “realidade”. Se a ironia é neste livro, como diz Blanchot, “um dom poético e um princípio de método” que modula, não apenas a palavra mas também a própria composição romanesca, na oposição contrapontística permanente e irresolvida entre “a exactidão e a alma”, a reflexão e os sentimentos, o indivíduo em busca de si e o mundo dos factos (nas vésperas da Primeira Grande Guerra), essa mesma ironia haveria de determinar todo o acidentado e contraditório processo de génese e de publicação deste objecto literário esquivo que, ao contrário do que frequentemente se tem dito, será mais um não-romance do que um anti-romance».

(José Amaral)

Feira de S. Mateus

Uma interrupção nas férias para publicitar a Feira de S. Mateus 2008. Com mais de setecentos anos a Feira de São Mateus (Também conhecida por Feira Franca) acolhe a cada edição milhares de visitantes, centenas de feirantes e dezenas de espectáculos, durante mais de um mês (começou a 14 de Agosto e prolonga-se até 21 de Setembro).
Muitos são os espectáculos que vão do fado, à música popular, rock… Entre outros apresentam-se no palco da feira Xutos e Pontapés, Ala dos Namorados, Mariza, Camané, Marco Paulo, Ricardo Azevedo, Quim Barreiros, Ronalda e Emanuel. Para mais informações consultar o sítio
http://www.expovis.pt/fsm4.asp.

(José Amaral)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Pausa...

O Ad Litteram vai entrar de férias para um descanso merecido. A todos aqueles, e são muitos, que visitam o meu cantinho desejo umas boas férias.
(José Amaral)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Recordar... Hiroshima

A 6 de Agosto de 1945 (pelas 8:45 H), a bomba atómica (com o curioso nome de "Little Boy"), foi lançada do avião B-29, pilotado por Paul Warfield Tibbets Jr, e apelidado “Enola Gay”, sobre Hiroshima. A bomba atómica é uma arma explosiva, cuja energia deriva de uma reacção nuclear e tem um poder destrutivo imenso.
Nesse mesmo instante os prédios desapareceram e transformaram Hiroshima num campo deserto. Tudo ficou destruído – até um raio de 2 quilómetros a partir do hipocentro da explosão. Uma onda de calor intenso, emitia raios térmicos, como a radiação ultravioleta. Os que estavam num raio de um quilómetro morreram logo, os sobreviventes tiveram de aguentar o calor intenso, bem como uma chuva preta, oleosa e pesada, caiu ao longo do dia. Não se sabe ao certo quantos foram os mortos, mas passados 63 anos o número de vítimas continua a ser contabilizado, ultrapassando já os 250 mil mortos.
Todos os anos esta data é recordada, para que não caia no esquecimento e para que o Homem veja os horrores que ainda é capaz de cometer.

(José Amaral)

quinta-feira, 31 de julho de 2008

II Pilar da Terra

Um dos post’s anteriores só agora fica completo com esta referência. Trata-se do Volume II de Os Pilares da Terra (Editorial Presença, 596 páginas) de Ken Follet.
Quando pensávamos que a continuação da saga não poderia trazer nada de novo, eis que o autor nos surpreende. A trama vai conhecendo novos contornos e vai-nos surpreendendo, além de nos ir prendendo à leitura. Philip, prior de Kingsbridge, continua a revelar-se um homem que luta contra tudo e todos para construir a sua catedral. Na história Aliena continua a revelar-se uma mulher de armas: arranja dinheiro para armar o irmão e para o ajudar a voltar a ser conde, casa-se com Alfred (embora o casamento não se consume por falta de consumação carnal)… engravida de Jack e dá à luz um filho; vai atrás do seu amor… Tom, o construtor, quando nada o fazia prever morre. Richard torna-se conde… Philip acaba por construir, sob a orientação de Jack, a catedral…
Definitivamente dois livros a não perder. Pela mestria da escrita de Ken Follet, mas também pela história narrada. Pelas intrigas político-religiosas que nos fazem pensar que a História (os pecados mundanos) se repete num círculo vicioso.

(José Amaral)

domingo, 27 de julho de 2008

Poema


Nuit


Il faisait noir
comme dans la gueule d’un loup !

La nuit était tombée…

Un vieillard veinard
dormait le sommeil du juste.

Un jardinier somnambule,
dans le jardin de la vie,
prenait soin de ses fleurs
de façon à écarter
l’insomnie atroce
que l’emprisonnait
dans les catacombes du remords.

Un long fleuve de couleurs
faisait songer à cet homme
qui cherchait emprunter,
à la beauté fleurie du jardin,
la rémission de son horrible passé…
d’assassin.




(in “Outonalidades”, José Amaral)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

I Pilar da Terra

Na senda das leituras de férias trago hoje aqui uma obra deliciosa, quer pela forma como está escrita quer pela história narrada. Trata-se do Volume I de Os Pilares da Terra (Editorial Presença, 498 páginas) de Ken Follet. Apenas a lamentar o tipo de letra muito pequeno (o mesmo se encontrará no Volume II que aqui comentarei). Mas em nada este pormenor serve para minorar esta maravilhosa obra.
“Os Pilares da Terra” é um romance histórico prenhe de intrigas, aventura e lutas político-religiosas. A trama desenrola-se em Inglaterra, no século XII, onde Tom, um pedreiro, persegue o sonho de construir uma catedral, dotada de uma beleza sublime, digna de tocar os céus. Tom pretende construir esta catedral, pois a sua mulher, depois de ter dado à luz o seu terceiro filho, faz-lhe este pedido. Depois como morre, Tom quer construir a catedral para homenageá-la. Esta ambição vai envolver outros protagonistas: Philip Gwyned, o prior de Kingsbridge, enfrenta o ambicioso bispo Waleran Bigod. Administrador enérgico, Philip assume um mosteiro à beira da falência e reergue-o, transformando a aldeia ao redor numa cidade importante. Waleran a princípio ajuda Philip na esperança de usá-lo para subir na hierarquia da igreja, mas ao perceber que não pode manipulá-lo, torna-se inimigo do prior. Aliena, filha do conde Bartholomew de Shiring, incorre na ira da poderosa família Hamsleigh ao romper o noivado com William Hamsleigh. Antes de morrer, o pai deles (Aliena e Richard) faz com que os dois jurem não descansar enquanto não recuperarem as terras da família. Protegida pelo prior Philip, ela prospera no comércio de lã e financia a carreira do irmão como cavaleiro do rei, na esperança de que o soberano devolva as terras da família usurpadas por William.
Para o segundo volume ficam reservados muitos desfechos: será ou não concluída a construção? qual o futuro de Richard e de William? casar-se-á Aliena e com quem?
Este é daqueles livros que figuram no topo da escolha de quem gosta de ler obras bem escritas e com substância.

(José Amaral)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Liberdade


O Novo Colosso

«Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela
Com lábios silenciosos “Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado».



Gravado numa placa de bronze no pedestal da Estátua da Liberdade, na baía de Nova Iorque, este soneto escrito por Emma Lazarus (nascida em 1859, faleceu em Nova Iorque aos 38 anos, a 19 de Novembro de 1887)

(José Amaral)