sábado, 4 de outubro de 2008

DIA MUNDIAL DO PROFESSOR

A 5 de Outubro celebra-se o Dia Mundial do Professor. Este dia celebra-se desde que a UNESCO resolveu associar esta comemoração à mesma data em que, em 1966, uma conferência intergovernamental, organizada conjuntamente pela UNESCO e pela OIT (Organização Internacional do Trabalho), aprovou uma “Recomendação” respeitante ao estatuto dos professores. A primeira vez que foi assinalada a data foi em 1993, em Genève, com a presença de Federico Mayor, alto responsável da UNESCO. Os professores são mais de 60 milhões em todo o mundo e a UNESCO reconhece que se trata de um grupo profissional fundamental sem o qual “não pode haver nem desenvolvimento durável, nem coesão social, nem paz”.
Para este ano o slogan escolhido é: OS PROFESSORES CONTAM! Esta afirmação relembra o trabalho diário dos professores e educadores na construção de um mundo melhor.


Em Portugal será que os professores são tratados com o respeito merecido? As sondagens dizem que são a classe em quem os portugueses mais confiam, mas os governantes responsáveis pela Educação no nosso país nem sempre os tratam como devem. Vale a pena ler o artigo de José Gil (revista “Visão” – n.º 813 – 2 de Outubro de 2008) sob o título “A domesticação da sociedade”. Como o artigo é um pouco extenso apenas transcrevo o último parágrafo:
«No processo de domesticação da sociedade, a teimosia do primeiro-ministro e da sua ministra da Educação representam muito mais do que simples traços psicológicos. São técnicas terríveis de dominação, de castração e de esmagamento, e de fabricação de subjectividades obedientes. Conviria chamar a este mecanismo tão eficaz, “a desactivação da acção”. É a não-inscrição elevada ao estatuto sofisticado de uma técnica política, à maneira de certos processos psicóticos».

(José Amaral)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

"Instrument de la Paix..."

São Francisco de Assis nasceu em Assis, a 26 de Setembro de 1181 e faleceu a 3 de Outubro de 1226. Frade católico, fundou a "Ordem dos Frades Menores", mais conhecidos como Franciscanos. Foi canonizado em 1228 pela Igreja Católica.
Um dos textos mais conhecidos de S. Francisco é a “Oração de São Francisco”. Aqui fica o texto na sua versão original (Francês) e numa das traduções portuguesas mais conhecidas:


Belle prière à faire pendant la Messe

Seigneur, faites de moi un instrument de votre paix.
Là où il y a de la haine, que je mette l’amour.
Là où il y a l’offense, que je mette le pardon.
Là où il y a la discorde, que je mette l’union.
Là où il y a l’erreur, que je mette la vérité.
Là où il y a le doute, que je mette la foi.
Là où il y a le désespoir, que je mette l’espérance.
Là où il y a les ténèbres, que je mette votre lumière.
Là où il y a la tristesse, que je mette la joie.
Ô Maître, que je ne cherche pas tant à être consolé qu’à consoler, à être compris qu’à comprendre, à être aimé qu’à aimer, car c’est en donnant qu’on reçoit, c’est en s’oubliant qu’on trouve, c’est en pardonnant qu’on est pardonné, c’est en mourant qu’on ressuscite à l’éternelle vie.

(Pintura de El Greco - Imagem retirada da Internet)


(Senhor: Fazei de mim um instrumento de vossa Paz!
Onde houver Ódio, que eu leve o Amor,
Onde houver Ofensa, que eu leve o Perdão.
Onde houver Discórdia, que eu leve a União.
Onde houver Dúvida, que eu leve a Fé.
Onde houver Erro, que eu leve a Verdade.
Onde houver Desespero, que eu leve a Esperança.
Onde houver Tristeza, que eu leve a Alegria.
Onde houver Trevas, que eu leve a Luz!
Ó Mestre,
fazei que eu procure mais:
consolar, que ser consolado;
compreender, que ser compreendido;
amar, que ser amado.
Pois é dando, que se recebe.
Perdoando, que se é perdoado e
é morrendo, que se vive para a vida eterna!
Amem.)

(José Amaral)

sábado, 27 de setembro de 2008

O actor norte-americano Paul Newman morreu aos 83 anos. O também realizador, argumentista, produtor e conhecido pela sua defesa pelas causas humanitárias anunciou a sua saída do mundo do cinema no ano passado, pouco antes de confirmar publicamente que se encontrava doente com um cancro de pulmão.
A morte do actor foi confirmada pela sua porta-voz, Marni Tomljanovic, citada pela CNN e BBC. Newman morreu ontem, cerca de um mês depois de o próprio ter decidido interromper os tratamentos de quimioterapia a que estava a ser sujeito num hospital de Nova Iorque e pedido à família para ir para casa.
Com mais de 60 participações em filmes e dezenas de outras em séries televisivas, Newman recebeu dez nomeações para os Óscares ao longo da sua carreira, tendo finalmente sido distinguido em 1987 com o Óscar para melhor actor principal pela sua interpretação em “A Cor do Dinheiro”. Foi ainda distinguido com dezenas de outros prémios,
A sua última aparição no grande ecrã foi ao lado de Tom Hanks, no filme “Caminho para a Perdição” (2002), do realizador Sam Mendes.
Nascido num subúrbio de Cleveland, a 26 de Janeiro de 1925, foi aos 26 anos que começou a dar os primeiros passos na actuação. Ao longo dos 50 anos que seguiram, Newman interpretou papéis memoráveis em filmes como “Gata em Telhado de Zinco Quente” (1958), “A Vida é um Jogo” (1961), “Butch Cassidy and the Sundance Kid” (1969) ou “The Sting” (1973). Além da carreira de actor, Newman realizou ainda quatro filmes, todos com a participação da mulher Joanne Woodward, com quem estava casado desde 1958,
O norte-americano deixou ainda a sua marca através da Newman's Own Foundation, com a qual financiava várias organizações de caridade e humanitárias. Newman fundou ainda a Hole in the Wall, uma organização que oferecia férias de Verão a crianças de todo mundo que sofriam de doenças graves.
Robert Forrester, vice-presidente da Newman's Own Foundation, sublinhou num comunicado divulgado hoje que o actor “o seu coração e alma foram dedicados ajudar a fazer do mundo um melhor lugar para todos”.
Newman tinha ainda uma enorme paixão pelas quatro rodas. Em 1979, na altura com 54 anos, levou um Porsche 935 da equipa Dick Barbour ao segundo lugar da mítica prova francesa as 24 horas de Le Mans, uma das maiores provas de resistência.
Aos 70 anos, tornou-se o piloto mais velho a fazer parte da equipa vencedora das 24 horas de Daytona, em 1995.

(27.09.2008 - in “PÚBLICO”)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Outono

Já uma vez aqui publiquei este poema, mas em jeito de recepção ao Outono que agora começa volto a publicá-lo.

OutonO

Era Outono!

Passei por uma ruazita;
num pobre banco de madeira,
um “pobre” idoso sentado.
Tinha uma lágrima,
no canto do olho,
prestes a escorrer pela sua face
já gasta pelas agruras da vida.

Era Outono!

Nesse preciso momento reparei,
na única árvore existente.
Estava praticamente despida.
Tinha a sua beleza,
tal como o velhinho;
uma única folha
se mantinha incólume
à passagem do tempo.

Era Outono!

O idoso baixou a cabeça.
O ramo da árvore,
onde se encontrava a solitária folha,
buliu.

Era Outono!

Quando nada o fazia prever,
o sopro da vida,
gélido e aterrador,
percorreu a ruazita.
Foi fatal!
Para a folha que... caiu.
Para o idoso que... faleceu.

Era Outono!...
(in "Poder da Díctamo", José Amaral)

domingo, 21 de setembro de 2008

Poema

26


Já não me importa saber quem sou
nem o que faço aqui
importa-me saber, meu País,
que mais queres que faça por ti?…

Em Abril saí à rua,
onde tive meus filhos
cuja mãe é a madrugada,
redobrados ficaram os cadilhos,
mas em troca não me deste nada.

Plantaste-me na mão
arma e cravos
que não brinquedos e alimento,
meus filhos choram noite inteira
e eu sofro calado meu tormento.
Meus pés pisam o joio e acordam,
sangrando lamúrias,
de um sonho que espalhaste
como trigo que nunca deu grão.


(in “25 de Abril – 34 Anos”, José Amaral)

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Amador...


Amador sem coisa amada


Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.

Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.

Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.

(António Gedeão)

domingo, 14 de setembro de 2008

Recordar é viver...

Mamma Mia! foi um dos musicais mais vistos e aplaudidos (por 30 milhões de pessoas em 170 cidades pelo mundo), ao som da música dos Abba. Agora chegou a vez do filme. A história do filme não é de todo inovadora, no entanto o filme vale pelas imagins idílicas, pela musicalidade e pelas interpretações, nomeadamente, as femininas. Vale a pena ver este filme que mais não seja para recordar grandes êxitos desse fabuloso quarteto sueco formado por volta de 1970-1972 pelos músicos e compositores Björn Ulvaeus e Benny Andersson, e pelas vocalistas Agnetha Fältskog e Anni-Frid Lyngstad. Ao longo do filme podemos recordar muitos dos seus êxitos, tais como: "Honey, Honey", "Mamma Mia""Take a Chance on Me", "Dancing Queen", "Chiquitita"…
Vale a pena ver!
Aqui fica a sinopse do filme:
«Uma mãe solteira, independente, que tem um pequeno hotel numa idílica ilha grega, Donna (Meryl Streep), está prestes a ter de deixar partir Sophie (Amanda Seyfried), a filha que criou sozinha. Para o casamento de Sophie, Donna convidou duas das suas melhores amigas - a prática e hilariante Rosie (Julie Walters) e a multi-divorciada Tanya (Christine Baranski) - as quais pertenciam à sua banda de outrora, «Donna and the Dynamos». Mas Sophie, secretamente, também convidou três pessoas (Colin Firth, Pierce Brosnan e Stellan Skarsgard). Na tentativa de encontrar o seu pai, ao qual estaria destinado levar a noiva ao altar, ela convidou três dos homens do passado de Donna. Em cerca de 24 horas mágicas e caóticas, surgirão novos romances e renascerão antigos, naquela que parece a ilha de todas as possibilidades.»

(José Amaral)

sábado, 13 de setembro de 2008


Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

(Eugénio de Andrade)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Má memória

Há imagens que não se apagam das nossas memórias. Marcam-nos, horrorizam-nos e assustam-nos.
A 11 de Setembro de 2001 (exactamente às 8h48m e 9h03m locais), as duas torres do maior conjunto comercial do mundo, o World Trade Center, em Nova Iorque, vieram abaixo horas após terem sido parcialmente destruídas por duas aeronaves comerciais Boeing 767, com um total de 157 passageiros a bordo. Uma outra aeronave Boeing 757 da American Airlines atingiu em cheio o prédio do Pentágono, destruindo parte do conjunto e matando muitos funcionários do governo federal americano (exactamente às 9h43m). Outra aeronave Boeing 757 foi sequestrada e derrubada, às 10h10m, caindo em Shanksville, a 130 quilómetros ao sul de Pittsburgh, na Pensilvânia. No total foram quatro sequestros simultâneos, todos perfeitamente estudados e friamente consumados por terroristas árabes.

(José Amaral)

domingo, 7 de setembro de 2008

apocalipse literário

Mais uma sugestão literária. Desta feita de novo um autor português. Confesso que não conhecia a prosa do autor, pois apenas conhecia a poesia. Falo de Valter Hugo Mãe que nasceu em Angola em 1971. Da vasta obra publicada destaca-se o romance “o remorso de baltazar serapião”, vencedor do Prémio José Saramago 2007.
O livro que sugiro é o apocalipse dos trabalhadores (QuidNovi, 182 páginas). É uma obra que se lê num fôlego e com muito agrado, já que se trata de uma narrativa “movida a vapor”, cheia de ritmo, carregada de humor à mistura da tragédia humana. Um pormenor que perpassa todo o livro: está escrito em letras minúsculas do princípio ao fim.
Aqui fica a sinopse do livro:
«Maria da graça – mulher-a-dias em Bragança esquecida do mundo – tem a ambição, não tão secreta como isso, de morrer de amor; e por essa razão sonha recorrentemente com a entrada no paraíso, onde vai à procura do senhor ferreira, seu antigo patrão, que, apesar de sovina e abusador, lhe falou de Goya, Rilke, Bergman ou Mozart como homens que impressionaram o próprio deus. Mas às portas do céu acotovelam-se mercadores de souvenirs em brigas constantes e São Pedro não faz mais do que a enxotar dali a cada visita.
Tal como Maria da Graça, todas as personagens deste livro buscam o seu paraíso; e, aflitas com a esperança, ou esperança nenhuma, de um dia serem felizes, acham que a felicidade vale qualquer risco, nem que seja para as lançar alegremente no abismo.
O apocalipse dos trabalhadores é um retrato do nosso tempo, feito da precariedade e dessa esperança difícil. Um retrato desenhado através de duas mulheres-a-dias, um reformado e um jovem ucraniano que reflectem sobre os caminhos sinuosos do engenho e da vontade humana num Portugal com cada vez mais imigrantes e sobre a forma como isso parece perturbar a sociedade.»

(José Amaral)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Mais um apontamento literário. De novo uma obra de Dino Buzzati. Depois de “O Deserto dos Tártaros” desta vez sugiro A Derrocada da Baliverna (Cavalo de Ferro, 335 páginas). É um registo diferente da anterior obra do autor – aqui sugerida – mas com a mesma qualidade. Refira-se que esta editora tem apostado na literatura de qualidade e nos grandes nomes. Segundo o “The Times” «Buzzati é um dos pioneiros que, a par de Kafka e de Dostoievsky, abriram novas fronteiras para a literatura moderna».
Esta obra é uma colectânea de trinta e sete contos de grande qualidade. Logo a começar pela história que dá o título ao livro, um homem vulgar decide-se a escalar clandestinamente a parede da Baliverna, um velho mosteiro degradado e transformado em refúgio de vagabundos e bandidos. Essa acção imponderada é punida com a derrocada de todo o edifício, provocando o terror do castigo subsequente. Mas não só este como muitos outros contos dos quais destaco “O Cão que viu Deus”, “O Escuro”, “Os cinco irmãos”… Em todos estes contos Buzzati dá-nos uma visão fantástica do mundo. Neles vemos como o ser humano é, por natureza, um ser angustiado.
É uma obra que recomendo vivamente!

(José Amaral)

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Regresso

Depois de umas merecidas férias... o regresso. Ao convívio dos meus leitores e, também, ao trabalho...


Sorriso


Ali estavas tu,
com uns grandes olhos,
verdes,
mas sempre sempre
tristes.

São o reflexo
do mundo
em que vives.
Esse mundo tão real
que chegava
a sobrepor-se
à imaginação.
Bem queres,
com o teu sorriso,
alegrar o teu
sempre sempre triste
olhar.

Não consegues,
já que os olhos
vêem
o que o sorriso
procura disfarçar!


(in "Outonalidades", José Amaral)

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Deserto delicioso

Numa incursão, nestas férias, por uma livraria deparei-me, e em boa hora, com um expositor dedicado a Dino Buzzati. A escolha era variada, mas num primeiro momento chamou-me a atenção o livro O Deserto dos Tártaros (Cavalo de Ferro, 254 páginas). Refira-se que a obra de Dino Buzzati venceu entre outros os prémios Strega e Napoli.
Esta é uma daquelas obras aclamadas pela crítica e que lemos com agrado. Por vezes o relato parece cair numa monotonia, mas mesmo assim em momento nenhum pensamos em deixar a obra de lado. Bem pelo contrário, apetece-nos descobrir o que se seguirá.
A história ganha vida num deserto. Estamos na presença de Giovanni Drogo, recém-nomeado oficial. Destacado para a fortaleza Bastiani, Drogo aproxima-se com a sensação de que está prestes a casar-se com uma total solidão. Drogo deixa tudo para trás: a família, os prazeres da cidade, as mulheres… Drogo escolhe viver longe de tudo, embora, chegado à fortaleza quer “fugir de lá”. A fortaleza, enorme, amarela, situada nos limites do deserto, outrora reino dos míticos Tártaros, acolhe-o na sua misteriosa imponência. Os anos vão passando e Drogo vai-se habituando àquele viver monótono, com um único pensamento: o dia em que o inimigo virá para atacar a fortaleza. Muitas vezes é com essa sensação que fica quem vive na fortaleza, pois são sombras e objectos fantasmagóricos que assaltam o dia-a-dia de quem ali vive. É neste pressuposto que Giovanni sonha com a invasão dos tártaros e com a hipótese de fazer algo grandioso, ainda que morra na batalha. O tempo passa, os anos passam e a esperança de Drogo também passa. Drogo termina a sua existência humana e nós, leitores, sentimos um vazio, uma certa desilusão porque acabou aquela narrativa que nos fazia, por momentos, viver com Drogo na fortaleza Bastiani.

(José Amaral)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Mais qualidade literária

No seguimento do post anterior (e com as férias quase a dizerem adeus) trago aqui a referência a O Homem sem Qualidades II (Dom Quixote, 451 páginas), de Robert Musil.
No seguimento do Volume I (lembro que este romance é constituído por três volumes, mas em Portugal só estão, para já, editados dois) estamos na presença da continuação de um romance fantástico. Este segundo volume lê-se com agrado redobrado.
Como podemos ver na contracapa deste volume podemos ler, pela escrita de João Barrento que assina a tradução, que «Musil legou-nos alguns dos mais significativos fragmentos de literatura do século, cujos traços mais salientes são a complexidade dos seus perfis anímicos e o rigor da observação, da análise e da reflexão – uma obra que se orienta pelos princípios, contidos na fórmula lapidar que ele próprio cunhou, da exactidão e da alma». Por tudo isto vale mesmo a pena ler esta belíssima obra.

(José Amaral)

domingo, 17 de agosto de 2008

Qualidade literária

Embora de férias… no que à leitura diz respeito, nem por isso. Desta vez aporto aqui um belíssimo livro cujo título suscita a maior das curiosidades. Trata-se do romance de Robert Musil, O Homem sem Qualidades I (Dom Quixote, 843 páginas). Louve-se, igualmente, a tradução portuguesa da autoria de João Barrento.
É um livro muito bem escrito, numa escrita profunda que nos faz pensar. O número de páginas não deve ser motivo para nos afastar da leitura, mas, pelo contrário, abrir-nos a vontade para o ler.

Aqui fica a sinopse:
«Esta é uma obra singular e única no panorama da ficção do século XX.
Mais do que um romance, O Homem sem Qualidades é o maior projecto romanesco, deliberada e quase necessariamente inconcluso e inconclusivo, da literatura do século passado. Um rio sem limites nem margens, que não desagua em nenhum mar conhecido, objecto inclassificável, para lá do “literário” e da ficção.
No momento da morte inesperada de Musil em 15 de Abril de 1942, no exílio de Genebra, O Homem sem Qualidades é verdadeiramente o “livro por vir”, aquele cuja essência – no seu protagonista centrado, no processo da sua génese, no cerne do seu pensamento – é a de um laboratório de possibilidades que o transformarão na obra aberta por excelência e na “tarefa criadora [mais] desmedida” da história da literatura moderna. O Homem sem Qualidades será, durante mais de duas décadas, a obra em processo de criação e transformação que se autonomiza e se impõe de forma obsessiva e implacável ao próprio criador, aprendiz de feiticeiro que a controla cada vez menos à medida que ela se vai transformando numa rede rizomática de possibilidades de crescimento e de perspectivas de finalização sempre adiada, que parece querer reflectir o próprio feixe aleatório de possibilidades que é aquilo a que chamamos “realidade”. Se a ironia é neste livro, como diz Blanchot, “um dom poético e um princípio de método” que modula, não apenas a palavra mas também a própria composição romanesca, na oposição contrapontística permanente e irresolvida entre “a exactidão e a alma”, a reflexão e os sentimentos, o indivíduo em busca de si e o mundo dos factos (nas vésperas da Primeira Grande Guerra), essa mesma ironia haveria de determinar todo o acidentado e contraditório processo de génese e de publicação deste objecto literário esquivo que, ao contrário do que frequentemente se tem dito, será mais um não-romance do que um anti-romance».

(José Amaral)

Feira de S. Mateus

Uma interrupção nas férias para publicitar a Feira de S. Mateus 2008. Com mais de setecentos anos a Feira de São Mateus (Também conhecida por Feira Franca) acolhe a cada edição milhares de visitantes, centenas de feirantes e dezenas de espectáculos, durante mais de um mês (começou a 14 de Agosto e prolonga-se até 21 de Setembro).
Muitos são os espectáculos que vão do fado, à música popular, rock… Entre outros apresentam-se no palco da feira Xutos e Pontapés, Ala dos Namorados, Mariza, Camané, Marco Paulo, Ricardo Azevedo, Quim Barreiros, Ronalda e Emanuel. Para mais informações consultar o sítio
http://www.expovis.pt/fsm4.asp.

(José Amaral)

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Pausa...

O Ad Litteram vai entrar de férias para um descanso merecido. A todos aqueles, e são muitos, que visitam o meu cantinho desejo umas boas férias.
(José Amaral)

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Recordar... Hiroshima

A 6 de Agosto de 1945 (pelas 8:45 H), a bomba atómica (com o curioso nome de "Little Boy"), foi lançada do avião B-29, pilotado por Paul Warfield Tibbets Jr, e apelidado “Enola Gay”, sobre Hiroshima. A bomba atómica é uma arma explosiva, cuja energia deriva de uma reacção nuclear e tem um poder destrutivo imenso.
Nesse mesmo instante os prédios desapareceram e transformaram Hiroshima num campo deserto. Tudo ficou destruído – até um raio de 2 quilómetros a partir do hipocentro da explosão. Uma onda de calor intenso, emitia raios térmicos, como a radiação ultravioleta. Os que estavam num raio de um quilómetro morreram logo, os sobreviventes tiveram de aguentar o calor intenso, bem como uma chuva preta, oleosa e pesada, caiu ao longo do dia. Não se sabe ao certo quantos foram os mortos, mas passados 63 anos o número de vítimas continua a ser contabilizado, ultrapassando já os 250 mil mortos.
Todos os anos esta data é recordada, para que não caia no esquecimento e para que o Homem veja os horrores que ainda é capaz de cometer.

(José Amaral)

quinta-feira, 31 de julho de 2008

II Pilar da Terra

Um dos post’s anteriores só agora fica completo com esta referência. Trata-se do Volume II de Os Pilares da Terra (Editorial Presença, 596 páginas) de Ken Follet.
Quando pensávamos que a continuação da saga não poderia trazer nada de novo, eis que o autor nos surpreende. A trama vai conhecendo novos contornos e vai-nos surpreendendo, além de nos ir prendendo à leitura. Philip, prior de Kingsbridge, continua a revelar-se um homem que luta contra tudo e todos para construir a sua catedral. Na história Aliena continua a revelar-se uma mulher de armas: arranja dinheiro para armar o irmão e para o ajudar a voltar a ser conde, casa-se com Alfred (embora o casamento não se consume por falta de consumação carnal)… engravida de Jack e dá à luz um filho; vai atrás do seu amor… Tom, o construtor, quando nada o fazia prever morre. Richard torna-se conde… Philip acaba por construir, sob a orientação de Jack, a catedral…
Definitivamente dois livros a não perder. Pela mestria da escrita de Ken Follet, mas também pela história narrada. Pelas intrigas político-religiosas que nos fazem pensar que a História (os pecados mundanos) se repete num círculo vicioso.

(José Amaral)

domingo, 27 de julho de 2008

Poema


Nuit


Il faisait noir
comme dans la gueule d’un loup !

La nuit était tombée…

Un vieillard veinard
dormait le sommeil du juste.

Un jardinier somnambule,
dans le jardin de la vie,
prenait soin de ses fleurs
de façon à écarter
l’insomnie atroce
que l’emprisonnait
dans les catacombes du remords.

Un long fleuve de couleurs
faisait songer à cet homme
qui cherchait emprunter,
à la beauté fleurie du jardin,
la rémission de son horrible passé…
d’assassin.




(in “Outonalidades”, José Amaral)

quinta-feira, 24 de julho de 2008

I Pilar da Terra

Na senda das leituras de férias trago hoje aqui uma obra deliciosa, quer pela forma como está escrita quer pela história narrada. Trata-se do Volume I de Os Pilares da Terra (Editorial Presença, 498 páginas) de Ken Follet. Apenas a lamentar o tipo de letra muito pequeno (o mesmo se encontrará no Volume II que aqui comentarei). Mas em nada este pormenor serve para minorar esta maravilhosa obra.
“Os Pilares da Terra” é um romance histórico prenhe de intrigas, aventura e lutas político-religiosas. A trama desenrola-se em Inglaterra, no século XII, onde Tom, um pedreiro, persegue o sonho de construir uma catedral, dotada de uma beleza sublime, digna de tocar os céus. Tom pretende construir esta catedral, pois a sua mulher, depois de ter dado à luz o seu terceiro filho, faz-lhe este pedido. Depois como morre, Tom quer construir a catedral para homenageá-la. Esta ambição vai envolver outros protagonistas: Philip Gwyned, o prior de Kingsbridge, enfrenta o ambicioso bispo Waleran Bigod. Administrador enérgico, Philip assume um mosteiro à beira da falência e reergue-o, transformando a aldeia ao redor numa cidade importante. Waleran a princípio ajuda Philip na esperança de usá-lo para subir na hierarquia da igreja, mas ao perceber que não pode manipulá-lo, torna-se inimigo do prior. Aliena, filha do conde Bartholomew de Shiring, incorre na ira da poderosa família Hamsleigh ao romper o noivado com William Hamsleigh. Antes de morrer, o pai deles (Aliena e Richard) faz com que os dois jurem não descansar enquanto não recuperarem as terras da família. Protegida pelo prior Philip, ela prospera no comércio de lã e financia a carreira do irmão como cavaleiro do rei, na esperança de que o soberano devolva as terras da família usurpadas por William.
Para o segundo volume ficam reservados muitos desfechos: será ou não concluída a construção? qual o futuro de Richard e de William? casar-se-á Aliena e com quem?
Este é daqueles livros que figuram no topo da escolha de quem gosta de ler obras bem escritas e com substância.

(José Amaral)

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Liberdade


O Novo Colosso

«Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com pernas abertas e conquistadoras a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher poderosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gémeas.
“Mantenham antigas terras sua pompa histórica!” grita ela
Com lábios silenciosos “Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,
As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado».



Gravado numa placa de bronze no pedestal da Estátua da Liberdade, na baía de Nova Iorque, este soneto escrito por Emma Lazarus (nascida em 1859, faleceu em Nova Iorque aos 38 anos, a 19 de Novembro de 1887)

(José Amaral)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Mais um...

Mais uma leitura de férias. Desta feita Diário de um Killer Sentimental (Edições Asa, 152 páginas) de Luís Sepúlveda. São três pequenas histórias (a já citada que dá nome ao livro, “Jacaré” e “Hot Line”) em que o autor regressa ao género policial. A particularidade das histórias é que são narradas na primeira pessoa de um profissional que se apaixona e que sente uma irresistível curiosidade pela sua próxima vítima. Aliado a este factor temos um humor negro, que é a nota dominante nestas três pequenas novelas de cariz policial que fazem parte deste livro. Acresce que Luís Sepúlveda tem uma escrita fluente, simples, mas inteligente.
Na primeira história – parece-nos um episódio de James Bond – Sepúlveda de forma sóbria denuncia a hipocrisia da lei em países onde, supostamente, se defendem os direitos humanos. Também na segunda história o tráfico de matérias-primas provenientes de espécies protegida é preocupação para o autor. Na terceira história, uma vez mais estamos na presença de injustiças por causa da influência dos poderosos, subjugando os mais fracos.
Uma leitura que recomendo, pois é divertida, faz-nos rir e descontrai-nos. Uma leitura light (mas nem por isso menos conseguida) para as férias.


(José Amaral)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Angústia


AngústiA

Uma azia, dilacerante,
vagueava, ondulante,
em meu peito.
Consumia-me, aquela infeliz;
abrasava-me, qual lava vulcânica.

Eis, senão quando,
a azia abriu uma brecha,
em meu coração empedernido,
qual lança mortal.

Senti tremuras,
vorazes,
que me espicaçavam.

Aquela azia
- qual áspide bicéfala –
provocava em mim
um efeito nefasto.

Aquela ingrata
que usurpava, ilegalmente, o meu corpo
trazia-me escravizado,
amargurado,
doído,
angustiado.




(in Poder da Díctamo, José Amaral)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Regresso à boa leitura

Mais uma sugestão literária para as férias. Um livro que entraria, directamente, para o meu Top Five dos melhores livros que já li (no que a autores estrangeiros se reporta). Trata-se de O Regresso (Edições Asa, 314 páginas) de Bernhard Schlink.
Estamos na presença de um romance construído de várias histórias a fazer lembrar as matrioskas (bonecas russas) ou uma cebola que se vai descascando. As histórias não aparecem soltas, mas ligadas; entre todas está presente a ideia de “regresso” – como um perpétuo movimento. A “Odisseia”, de Homero, ajuda na construção da narrativa. Peter Debauer (a personagem principal) vive com a mãe e passa férias na Suíça, com os avós paternos, responsáveis pela edição de uma colecção de livros (romances de cordel). Um dia, os avós dão ao neto o papel usado nas provas, em cujo verso ele pode escrever mas cujas histórias está proibido de ler. Desobedecendo, põe-se a ler um desses romances, sobre o regresso a casa de um soldado alemão, e fica obcecado pela história, cujo desenlace ignora, já que tinha utilizado as respectivas folhas em trabalhos escolares.
Anos mais tarde, já adulto, Peter decide procurar as páginas desaparecidas e regressa aos fragmentos das aventuras de Karl, que copiam e reinventam os trabalhos de Ulisses, lançando-se numa complexa e demorada procura. Sob o encantamento da sua própria história de amor, e à medida que começa a deslindar o mistério do desaparecimento do pai, por um acaso, descobre que o seu pai, soldado na guerra, que dera como morto, pode afinal estar vivo.
Peter vê-se, assim, obrigado a questionar a sua própria identidade e a enfrentar o facto de a realidade ser, por vezes, um reflexo das expectativas dos outros.

(José Amaral)

domingo, 13 de julho de 2008

"Poemágua"


Lição sobre a água

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, ácidos, base e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

(António Gedeão)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Delícia literária

O livro que hoje aconselho, após deliciosa leitura, é Alfreda ou a Quimera (Bertrand Editora, 238 páginas) de Vasco Graça Moura. Confesso que não conhecia VGM enquanto romancista, pois é de um romance que se trata, apenas como poeta, tradutor e cronista. No entanto fiquei extremamente agradado com este belíssimo, de todo, romance. VGM cultiva a arte da escrita primorosa matizada com um sentido irónico apurado e uma crítica social atenta – conquanto desvelada. Lê-se com entusiasmo e dá vontade de lê-lo de “fio a pavio”, num só fôlego. Recomendo vivamente a sua leitura, pois será, seguramente, uma bela escolha literária para as férias.
Estamos na presença de um coleccionador particular de livros antigos (um bibliófilo), João de Melo, que se deixa apaixonar por uma belíssima e misteriosa mulher, Alfreda, com quem esteve, apenas, duas vezes. A sua vida vai reger-se à volta deste “fantasma” que João tenta reencontrar. Muito pouco sabe dela, através dela e o que vai sabendo, por terceiros, deixa-o desiludido. João vive atormentado pela existência desta mulher e renuncia a uma vida normal, a um amor tranquilo e equilibrado por causa desta quimera-Alfreda.
Aqui vos deixo um pequeno excerto:

«Agora é Maio e o jacarandá da minha rua está em flor, enevoado de um azul intenso que estremece levemente ao sabor da brisa da manhã. Na próxima semana, tenciono retomar as minhas excursões pela província. Há muito que não o faço e acho que é tempo de recomeçar. Preciso dessa terapêutica. Sei que, numa terreola perdida entre Lamego e Viseu, há uma D. Gisela Fagundes Manso, divorciada, que tem à venda um bom lote de livros antigos deixados pelo cónego Hermenegildo Fagundes, seu tio».

(José Amaral)

domingo, 6 de julho de 2008

Prazer da Leitura

Dos livros que escolhi para leitura de férias (embora, ainda, não totalmente de férias) o primeiro que li foi Venenos de Deus Remédios do Diabo, de Mia Couto (Caminho, 188 páginas). Este belíssimo Romance mostra toda a habilidade “escrítica” de Mia Couto. Ele usa as palavras – criando neologismos frásicos, baseados em trocadilhos – com mestria. O livro lê-se de um fôlego e prende-nos a atenção do princípio ao fim. Recomendo a sua leitura!
A história gira à volta de Sidónio Rosa, um jovem médico (ou falso médico, pois ainda não concluiu o curso) que parte para Moçambique atrás de Deolinda, uma mulata por quem se perdeu de amores. Sidónio conheceu Deolinda num congresso médico em Lisboa e partiu para Moçambique atrás da sua amada. A história desenrola-se em Vila Cacimba, onde vivem os pais de Deolinda (Munda e Bartolomeu). Mas muitos são os segredos e mistérios à volta destas personagens. Que aconteceu a Deolinda? Quem é ela na verdade? Porque mentem os Sozinhos e se aproveitam da paixão de Sidónio? As respostas vão acontecendo.
Aqui fica um pequenino excerto para abrir o apetite:

«- Doutor, preciso que me avise quando estiver mesmo chegando a minha hora.
- Está certo. Eu digo.
- É que eu tenho uma confissão grave a lhe fazer.
- Pode falar agora.
- Eu só falarei quando as coisas estiverem a dar para o morto.
- Torto. Dar para o torto.
- Corrija-me o sofrimento, Doutor. Não me corrija a gramática. Que eu, modéstia à parte, fiz estudos nos tempos coloniais.
Depois remata em tom irónico:
- E não foram apenas umas cadeiras, como fizeram outros que eu bem conheço…»

(José Amaral)

sábado, 5 de julho de 2008

"Pandemónio"

Hoje fui ao cinema ver o filme de animação O Panda do Kung-Fu. É um filme bem conseguido (embora a história já seja um pouco esbatida), com muita cor, movimento e imagens belíssimas. Vale bem a pena! O herói é um panda trapalhão que trabalha no restaurante do pai e pensa tornar-se Mestre de Kung-Fu. Inesperadamente é escolhido e vai treinar com os seus heróis. Ninguém acredita que seja ele o eleito.
Aqui fica a sinopse do filme:
«À primeira vista pode parecer apenas um simples panda, mas de noite Po (Jack Black, na versão portuguesa Marco Horácio) sonha em tornar-se num mestre de artes marciais. Agora que o seu povo está em perigo, Po pode ver os seus sonhos tornarem-se realidade mais depressa do que pensa. Inesperadamente, foi escolhido para treinar ao lado dos seus ídolos: os lendários Tigresa, Grou, Louva, Víbora e Macaco. Conseguirá ele alcançar os seus sonhos e derrotar o temível leopardo das neves, Tai Lung? (na versão portuguesa Joaquim de Almeida)».

(José Amaral)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Sugestão perfumada

Acabei de “triler” o belíssimo livro de Patrick Suskïnd, O Perfume (Editorial Presença, 273 páginas). É um livro maravilhoso, envolvente como um frasco de perfume que liberta um odor agradabilíssimo.
É a estranha história, passada em França no século XVIII, de um artesão especializado na arte de perfumista. Jean-Batiste Grenouille (que por ter sido constantemente rejeitado se torna num cruel assassino) possui um raro dom: tem um talento único para apreciar os aromas que o rodeiam, talento que usa para criar os melhores perfumes do mundo. É através deste dom e na busca do odor Absoluto que Grenouille desata a matar jovens virgens para lhes extorquir o seu odor corporal. Desta forma alcançará o Belo e, por possuir uma incorrupta pureza, exerce um fascínio extra sobre os leitores. No entanto, este dom esconde um segredo e a sua paixão pela sua arte vai transformar-se numa obsessão sangrenta.
Suskïnd é mestre em criar uma ambiência fantástica que prende o leitor da primeira à última linha. Recomendo este livro para as férias e, já agora, também o filme. Esta obra já foi adaptada ao grande ecrã e a adaptação (embora não substitua a leitura do livro) está muito bem conseguida.

(José Amaral)

terça-feira, 1 de julho de 2008

«Colheita de Excelência»

O dia 2 de Julho foi profícuo no que às “Letras” se refere. Neste dia viram a luz do dia nomes sonantes da Literatura Mundial, mas também alguns disseram adeus ao mundo dos mortais. Aqui ficam alguns desses importantes símbolos.

Hermann Hesse nasceu na
Alemanha, em 2 de Julho de 1877 e faleceu na Suíça, a 9 de Agosto de 1962.
Procurou construir sua própria
filosofia, a partir de sua revolta pessoal e de sua interpretação pessoal das correntes filosóficas do Oriente e em especial em "O Lobo da Estepe" (1927), que é também uma crítica contra o militarismo vigente na sua terra natal depois da Primeira Guerra Mundial. Em 1946 ganhou o Prémio Nobel de Literatura.

Zélia Gattai nasceu em
São Paulo, em 2 de Julho de 1916 e faleceu em Salvador, a 17 de Maio de 2008. Conhecida como escritora, fotógrafa e memorialista ficou, igualmente, conhecida por ter sido casada (cinquenta e seis anos) casada com Jorge Amado.


Ernest Hemingway nasceu em Illinois, a 21 de Julho 1899 e faleceu em Idaho, a 2 de Julho 1961. Este escritor trabalhou como correspondente de guerra em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola e a experiência inspirou uma de suas maiores obras, "Por Quem os Sinos Dobram". Ao fim da Segunda Guerra Mundial se instalou em Cuba. A sua vida foi muito turbulenta; casou quatro vezes, além de vários relacionamentos românticos. Em 1952 publica "O Velho e o Mar" ( considerada a sua obra-prima), com o qual ganhou o prémio Pulitzer (1953) e em 1954 recebeu o prémio Nobel de Literatura.

Vladimir Nabokov nasceu em
São Petersburgo, a 22 de Abril de 1899 e faleceu em Montreux, Suíça, a 2 de Julho de 1977. Entre muitas obras célebre ficou o seu polémico romance, datado de 1955, “Lolita”.

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no
Porto, a 6 de Novembro de 1919 e faleceu em Lisboa, a 2 de Julho de 2004. Foi provavelmente a maior poetisa portuguesa do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da Língua Portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. Em 2003 foi distinguida com o Prémio Rainha Sofia.
Na Poesia Sophia destacou-se, mas também se distinguiu como contista deixando-nos o maravilhoso "
Contos Exemplares". Da sua extensa produção infantil destacam-se: "A Menina do Mar", "O Cavaleiro da Dinamarca", "A Floresta", "O Rapaz de Bronze", "A Fada Oriana"...

(José Amaral)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Poema


ocaso

O entardecer crepusculino
trazia-me uma paz de espírito,
que nem sei bem
como explicar.
Debaixo de uma araucária,
lendo um livro,
vislumbrava
uma araneífera roseira.
Um pavão macho,
de bela plumagem,
levantava em leque
a cauda
e parecia refrescar-me
a leitura.
E era assim que,
dia-após-dia,
o crepúsculo da vida
- aterrador -
se fazia anunciar.



(in “Oráculo Luminar”, José Amaral)

domingo, 22 de junho de 2008

Ao Verão


Amapolas


Amigo…

En el cielo,
donde crecen
amapolas centellantes
como perlas,
la noche empieza a desnudarse.

Al ponerse el sol
todas las aves
cantan melodías en sus nidos.

Vosotros quedáis solitarios!

Tinieblas soñadoras
por entre las nubes
guardan en su corazón
las claras mañanas.

Cuando renace la aurora
las amapolas,
que a la brisa ondean,
sueñan con suaves besitos
del rocío
e
vosotros quedáis solitarios
entre las hojas de hierba
de los campos.


(in "Outonalidades", José Amaral)

sábado, 21 de junho de 2008

Eu gosto é do Verão...

Hoje, 21 de Junho, começa o Verão (chamado solstício de Verão). Isto é, hoje é o dia mais longo do ano e a noite é menor. Porquê? Porque em astronomia, solstício é o momento em que o Sol, durante o seu movimento aparente na esfera celeste, se afasta mais da terra.
O engraçado da questão é que no
hemisfério norte o solstício de Verão ocorre no dia 21 de Junho, e o solstício de Inverno ocorre no dia 21 de Dezembro. Em contraponto, no hemisfério sul é o contrário.
Com o Verão é necessário haver muito mais cuidado com o Sol. E, numa altura em que tanto se fala de cancro é necessário protegermo-nos.
A todos um Verão risonho!...

(José Amaral)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Multifacetado

Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido como Chico Buarque nasceu no Rio de Janeiro, a 19 de Junho de 1944. É um dos mais afamados músicos, dramaturgos brasileiros. Como escritor ainda não conseguiu o estrelato. O seu livro “Budapeste” (que já li) não foi muito aclamado pela crítica, embora tenha ganho o Prémio Jabuti. A sua Ópera do malandro é conhecida mundialmente. Tive a oportunidade de vê-la, há dois anos, no Coliseu do Porto e é realmente um espectáculo fabuloso. A sua poesia também ganha força através das suas músicas. Aqui fica um exemplo:

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar

Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não mal disse a vida tanto quanto seu jeito de sempre falar
E não deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como a muito tempo nào queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tando esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz


(José Amaral)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Eugénio

Eugénio de Andrade (pseudónimo de José Fontinhas Rato) nasceu na freguesia de Póvoa de Atalaia (Fundão) a 19 de Janeiro de 1923 e faleceu no Porto a 13 de Junho de 2005 (após doença prolongada). Viveu em Lisboa, Coimbra e Porto. Travou amizade com muitas personalidades da cultura portuguesa: Miguel Torga, Carlos Oliveira, Eduardo Lourenço, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teixeira de Pascoaes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Mário Cesariny… Eugénio era pouco dado a aparições públicas e vivia distanciado da chamada vida social. Aqui fica um belíssimo poema de Eugénio:

AS AMORAS

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


(José Amaral)

120 anos de Pessoa

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, a 13 de Junho de 1888 e faleceu também na capital portuguesa a 30 de Novembro de 1935. É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa. Na literatura desdobrou-se em várias outras personalidades conhecidas como heterónimos. A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além do fato de ser o maior autor da heteronímia. Este ano comemoram-se os 120 anos do seu nascimento. Aqui fica um dos mais conhecidos poemas de Pessoa:


Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
que se chama o coração.


(José Amaral)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Poesia para o fim-de-semana

Konstantin Dmitrievich Balmont nasceu a 15 de Junho de 1867 e faleceu a 24 de Dezembro de 1942. Este poeta foi uma das maiores figuras da Idade de Prata da Poesia Russa.
Infelizmente não consegui um poema deste autor em Português, mas este italiano compreende-se.


IO VENNI AL MONDO PER VEDERE IL SOLE
Io venni al mondo per vedere il sole
e gli azzurri orizzonti.
Io venni al mondo per vedere il sole
e i bianchi monti.
Io venni al mondo per vedere il mare
e il verde oro del piano.
Più mondi in uno sguardo io so serrare:
sono un sovrano.
Io vinsi lo squallore dell'oblio
col mio incanto.
In me si cela eternamente un dio
e sempre canto.
Svegliato fu il mio sogno dal dolore
e in terra mi ama ognuno.
Chi pari m'è nelle virtù canore?
Alcuno, alcuno!
Io venni al mondo per vedere il sole
e all'imbrunire
io canterò… Io canterò del sole
nell'ora di morire.


Mihail Eminescu nasceu em Botoşani, a 15 de Janeiro de 1850 e faleceu em Bucareste, a 15 de Junho de 1889. Foi o mais importante e conhecido poeta da literatura romena.
Escreveu muito e graças a
Iacob Negruzzi, publicou os seus primeiros versos na revista Junimea. Foi por algum tempo actor, inspector de escolas e bibliotecário em Iaşi, onde conheceu Veronica Micle, sua inspiradora, e seu grande amor.


Foram-se os anos ...

Foram-se os anos como as nuvens vão
E nunca mais retornarão um dia;
Já não me encantam hoje, como então,
Lendas e doinas*, sons da fantasia

Que à mente de um menino foram graças
Mal compreendidas, cheias de um alarde –
Com tuas sombras hoje em vão me abraças,
Ó hora do mistério, ao fim da tarde.

Para arrancar um som do meu passado,
Para fazer-te, ó alma, ainda vibrar,
A mão em vão a lira tem tocado.

Perdeu-se tudo na alba do lirismo,
Calou-se a voz do outrora sublimado,
O tempo cresce em mim... e eu me abismo!

(* Doina: canção popular entranhável e melancólica, a mais viva expressão da alma romena, segundo o poeta Vasile Alecsandri. Tradução: Luciano Maia)


(José Amaral)

terça-feira, 10 de junho de 2008

Queres fiado...

A 12 de Junho de 1875 (n’A Lanterna Mágica) Rafael Bordalo Pinheiro “dava à luz” o Zé Povinho, personagem de crítica social adoptada como personificação nacional portuguesa.
Tem como característica principal o gesto do manguito (por vezes acompanhado da frase “Queres fiado, toma!”), representando a sua faceta de revolta e insolência. O Zé Povinho (como se deduz) refere-se ao povo português, criticando de uma forma humorística muitos dos problemas sociais e políticos da sociedade portuguesa. Além disso, é uma caricatura do povo português na sua característica de eterna revolta perante o abandono e esquecimento da classe política, embora pouco ou nada fazendo para alterar a situação.
Nos dias que correm, conturbados e de agitação, é necessário descruzar os braços e mostrar a revolta que nos vai na alma. Quiçá, seja necessário, também, fazer o manguito como forma de protesto.

(José Amaral)

domingo, 8 de junho de 2008

O Prazer da leitura...

Mais uma sugestão de leitura e novamente de um escritor português de renome: Ramalho Ortigão. A obra, ainda da colecção Grandes Autores Portugueses (colecção 120 anos JN), desta feita é Histórias Cor-de-rosa. Também desta vez lamento a letra miudinha de um saboroso livrinho de 79 páginas. São pequenas, mas deliciosas histórias escritas num estilo muito sóbrio donde se destaca o sentido crítico do autor, bem como o austerismo e ao mesmo tempo a delicadeza da escrita de Ramalho.
Ramalho Ortigão nasceu no Porto onde viveu com sua avó materna, depois de frequentar o curso de direito, que não completou, dedicando-se ao jornalismo. Envolveu-se na “Questão Coimbrã” e acabou a enfrentar Antero de Quental num duelo de espadas, devido à sua ligação profissional com o romantismo que dominava as letras. Contudo, mais tarde veio a ser uma das principais figuras da “Geração de 70”. Construiu uma sólida amizade com Eça de Queirós.

(José Amaral)

terça-feira, 3 de junho de 2008

Feira do Livro - Porto - 2008

No dia 7 de Junho de 2008, pelas 21:00 horas, estarei presente na Feira do Livro do Porto (a convite da Papiro Editora) num "Encontro de Poetas". É sempre uma oportunidade para rever amigos e para adquirir alguns livros a preços mais convidativos.
A todos os visitantes/amigos do Ad Litteram que queiram e possam estar presentes aqui fica o meu convite. Muito me honraria a vossa presença.
Apareçam e tragam um amigo!

(José Amaral)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Poema

Negra

Naquela pueril
face negra
aqueles
dois olhos grandes,
brancos,
lembram
os pólos
imaculadamente pacíficos.

O sorriso,
branco,
daquela pueril
face negra
lembra
a inocência
desta criança
que sorri
à pobreza
e às armas.

(in “Outonalidades”, José Amaral)

domingo, 1 de junho de 2008

"Menina e Moça"

Menos tempo disponível, e mais trabalho acrescido, não é sinónimo de não-leitura. Desta feita acabei de ler Menina e Moça, romance de Bernardim Ribeiro (Colecção 120 anos JN, 95 pág.). Esta edição tem a particularidade de estar escrita com o Português à época de Bernardim (século XV? – antes de 1557?), e só é pena estar grafado com uma letra muito miudinha.
Estamos na presença de uma obra, incompleta, de índole sentimental. A natureza aparece como “culpada” do estado de alma. Nesta obra encontramos uma comum nostalgia amorosa e o fatalismo do sofrimento (ex. Aónia e Bimuarder, Arima e Avalor), bem como constantes desencontros amorosos.
Vale a pena ler esta obra (fundamentalmente destinada a alunos do ensino secundário), pois trata-se de uma perturbante e enigmática obra.

(José Amaral)