sexta-feira, 18 de julho de 2008

Mais um...

Mais uma leitura de férias. Desta feita Diário de um Killer Sentimental (Edições Asa, 152 páginas) de Luís Sepúlveda. São três pequenas histórias (a já citada que dá nome ao livro, “Jacaré” e “Hot Line”) em que o autor regressa ao género policial. A particularidade das histórias é que são narradas na primeira pessoa de um profissional que se apaixona e que sente uma irresistível curiosidade pela sua próxima vítima. Aliado a este factor temos um humor negro, que é a nota dominante nestas três pequenas novelas de cariz policial que fazem parte deste livro. Acresce que Luís Sepúlveda tem uma escrita fluente, simples, mas inteligente.
Na primeira história – parece-nos um episódio de James Bond – Sepúlveda de forma sóbria denuncia a hipocrisia da lei em países onde, supostamente, se defendem os direitos humanos. Também na segunda história o tráfico de matérias-primas provenientes de espécies protegida é preocupação para o autor. Na terceira história, uma vez mais estamos na presença de injustiças por causa da influência dos poderosos, subjugando os mais fracos.
Uma leitura que recomendo, pois é divertida, faz-nos rir e descontrai-nos. Uma leitura light (mas nem por isso menos conseguida) para as férias.


(José Amaral)

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Angústia


AngústiA

Uma azia, dilacerante,
vagueava, ondulante,
em meu peito.
Consumia-me, aquela infeliz;
abrasava-me, qual lava vulcânica.

Eis, senão quando,
a azia abriu uma brecha,
em meu coração empedernido,
qual lança mortal.

Senti tremuras,
vorazes,
que me espicaçavam.

Aquela azia
- qual áspide bicéfala –
provocava em mim
um efeito nefasto.

Aquela ingrata
que usurpava, ilegalmente, o meu corpo
trazia-me escravizado,
amargurado,
doído,
angustiado.




(in Poder da Díctamo, José Amaral)

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Regresso à boa leitura

Mais uma sugestão literária para as férias. Um livro que entraria, directamente, para o meu Top Five dos melhores livros que já li (no que a autores estrangeiros se reporta). Trata-se de O Regresso (Edições Asa, 314 páginas) de Bernhard Schlink.
Estamos na presença de um romance construído de várias histórias a fazer lembrar as matrioskas (bonecas russas) ou uma cebola que se vai descascando. As histórias não aparecem soltas, mas ligadas; entre todas está presente a ideia de “regresso” – como um perpétuo movimento. A “Odisseia”, de Homero, ajuda na construção da narrativa. Peter Debauer (a personagem principal) vive com a mãe e passa férias na Suíça, com os avós paternos, responsáveis pela edição de uma colecção de livros (romances de cordel). Um dia, os avós dão ao neto o papel usado nas provas, em cujo verso ele pode escrever mas cujas histórias está proibido de ler. Desobedecendo, põe-se a ler um desses romances, sobre o regresso a casa de um soldado alemão, e fica obcecado pela história, cujo desenlace ignora, já que tinha utilizado as respectivas folhas em trabalhos escolares.
Anos mais tarde, já adulto, Peter decide procurar as páginas desaparecidas e regressa aos fragmentos das aventuras de Karl, que copiam e reinventam os trabalhos de Ulisses, lançando-se numa complexa e demorada procura. Sob o encantamento da sua própria história de amor, e à medida que começa a deslindar o mistério do desaparecimento do pai, por um acaso, descobre que o seu pai, soldado na guerra, que dera como morto, pode afinal estar vivo.
Peter vê-se, assim, obrigado a questionar a sua própria identidade e a enfrentar o facto de a realidade ser, por vezes, um reflexo das expectativas dos outros.

(José Amaral)

domingo, 13 de julho de 2008

"Poemágua"


Lição sobre a água

Este líquido é água.
Quando pura
é inodora, insípida e incolor.
Reduzida a vapor,
sob tensão e a alta temperatura,
move os êmbolos das máquinas que, por isso,
se denominam máquinas de vapor.

É um bom dissolvente.
Embora com excepções mas de um modo geral,
dissolve tudo bem, ácidos, base e sais.
Congela a zero graus centesimais
e ferve a 100, quando à pressão normal.

Foi neste líquido que numa noite cálida de Verão,
sob um luar gomoso e branco de camélia,
apareceu a boiar o cadáver de Ofélia
com um nenúfar na mão.

(António Gedeão)

terça-feira, 8 de julho de 2008

Delícia literária

O livro que hoje aconselho, após deliciosa leitura, é Alfreda ou a Quimera (Bertrand Editora, 238 páginas) de Vasco Graça Moura. Confesso que não conhecia VGM enquanto romancista, pois é de um romance que se trata, apenas como poeta, tradutor e cronista. No entanto fiquei extremamente agradado com este belíssimo, de todo, romance. VGM cultiva a arte da escrita primorosa matizada com um sentido irónico apurado e uma crítica social atenta – conquanto desvelada. Lê-se com entusiasmo e dá vontade de lê-lo de “fio a pavio”, num só fôlego. Recomendo vivamente a sua leitura, pois será, seguramente, uma bela escolha literária para as férias.
Estamos na presença de um coleccionador particular de livros antigos (um bibliófilo), João de Melo, que se deixa apaixonar por uma belíssima e misteriosa mulher, Alfreda, com quem esteve, apenas, duas vezes. A sua vida vai reger-se à volta deste “fantasma” que João tenta reencontrar. Muito pouco sabe dela, através dela e o que vai sabendo, por terceiros, deixa-o desiludido. João vive atormentado pela existência desta mulher e renuncia a uma vida normal, a um amor tranquilo e equilibrado por causa desta quimera-Alfreda.
Aqui vos deixo um pequeno excerto:

«Agora é Maio e o jacarandá da minha rua está em flor, enevoado de um azul intenso que estremece levemente ao sabor da brisa da manhã. Na próxima semana, tenciono retomar as minhas excursões pela província. Há muito que não o faço e acho que é tempo de recomeçar. Preciso dessa terapêutica. Sei que, numa terreola perdida entre Lamego e Viseu, há uma D. Gisela Fagundes Manso, divorciada, que tem à venda um bom lote de livros antigos deixados pelo cónego Hermenegildo Fagundes, seu tio».

(José Amaral)

domingo, 6 de julho de 2008

Prazer da Leitura

Dos livros que escolhi para leitura de férias (embora, ainda, não totalmente de férias) o primeiro que li foi Venenos de Deus Remédios do Diabo, de Mia Couto (Caminho, 188 páginas). Este belíssimo Romance mostra toda a habilidade “escrítica” de Mia Couto. Ele usa as palavras – criando neologismos frásicos, baseados em trocadilhos – com mestria. O livro lê-se de um fôlego e prende-nos a atenção do princípio ao fim. Recomendo a sua leitura!
A história gira à volta de Sidónio Rosa, um jovem médico (ou falso médico, pois ainda não concluiu o curso) que parte para Moçambique atrás de Deolinda, uma mulata por quem se perdeu de amores. Sidónio conheceu Deolinda num congresso médico em Lisboa e partiu para Moçambique atrás da sua amada. A história desenrola-se em Vila Cacimba, onde vivem os pais de Deolinda (Munda e Bartolomeu). Mas muitos são os segredos e mistérios à volta destas personagens. Que aconteceu a Deolinda? Quem é ela na verdade? Porque mentem os Sozinhos e se aproveitam da paixão de Sidónio? As respostas vão acontecendo.
Aqui fica um pequenino excerto para abrir o apetite:

«- Doutor, preciso que me avise quando estiver mesmo chegando a minha hora.
- Está certo. Eu digo.
- É que eu tenho uma confissão grave a lhe fazer.
- Pode falar agora.
- Eu só falarei quando as coisas estiverem a dar para o morto.
- Torto. Dar para o torto.
- Corrija-me o sofrimento, Doutor. Não me corrija a gramática. Que eu, modéstia à parte, fiz estudos nos tempos coloniais.
Depois remata em tom irónico:
- E não foram apenas umas cadeiras, como fizeram outros que eu bem conheço…»

(José Amaral)

sábado, 5 de julho de 2008

"Pandemónio"

Hoje fui ao cinema ver o filme de animação O Panda do Kung-Fu. É um filme bem conseguido (embora a história já seja um pouco esbatida), com muita cor, movimento e imagens belíssimas. Vale bem a pena! O herói é um panda trapalhão que trabalha no restaurante do pai e pensa tornar-se Mestre de Kung-Fu. Inesperadamente é escolhido e vai treinar com os seus heróis. Ninguém acredita que seja ele o eleito.
Aqui fica a sinopse do filme:
«À primeira vista pode parecer apenas um simples panda, mas de noite Po (Jack Black, na versão portuguesa Marco Horácio) sonha em tornar-se num mestre de artes marciais. Agora que o seu povo está em perigo, Po pode ver os seus sonhos tornarem-se realidade mais depressa do que pensa. Inesperadamente, foi escolhido para treinar ao lado dos seus ídolos: os lendários Tigresa, Grou, Louva, Víbora e Macaco. Conseguirá ele alcançar os seus sonhos e derrotar o temível leopardo das neves, Tai Lung? (na versão portuguesa Joaquim de Almeida)».

(José Amaral)

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Sugestão perfumada

Acabei de “triler” o belíssimo livro de Patrick Suskïnd, O Perfume (Editorial Presença, 273 páginas). É um livro maravilhoso, envolvente como um frasco de perfume que liberta um odor agradabilíssimo.
É a estranha história, passada em França no século XVIII, de um artesão especializado na arte de perfumista. Jean-Batiste Grenouille (que por ter sido constantemente rejeitado se torna num cruel assassino) possui um raro dom: tem um talento único para apreciar os aromas que o rodeiam, talento que usa para criar os melhores perfumes do mundo. É através deste dom e na busca do odor Absoluto que Grenouille desata a matar jovens virgens para lhes extorquir o seu odor corporal. Desta forma alcançará o Belo e, por possuir uma incorrupta pureza, exerce um fascínio extra sobre os leitores. No entanto, este dom esconde um segredo e a sua paixão pela sua arte vai transformar-se numa obsessão sangrenta.
Suskïnd é mestre em criar uma ambiência fantástica que prende o leitor da primeira à última linha. Recomendo este livro para as férias e, já agora, também o filme. Esta obra já foi adaptada ao grande ecrã e a adaptação (embora não substitua a leitura do livro) está muito bem conseguida.

(José Amaral)

terça-feira, 1 de julho de 2008

«Colheita de Excelência»

O dia 2 de Julho foi profícuo no que às “Letras” se refere. Neste dia viram a luz do dia nomes sonantes da Literatura Mundial, mas também alguns disseram adeus ao mundo dos mortais. Aqui ficam alguns desses importantes símbolos.

Hermann Hesse nasceu na
Alemanha, em 2 de Julho de 1877 e faleceu na Suíça, a 9 de Agosto de 1962.
Procurou construir sua própria
filosofia, a partir de sua revolta pessoal e de sua interpretação pessoal das correntes filosóficas do Oriente e em especial em "O Lobo da Estepe" (1927), que é também uma crítica contra o militarismo vigente na sua terra natal depois da Primeira Guerra Mundial. Em 1946 ganhou o Prémio Nobel de Literatura.

Zélia Gattai nasceu em
São Paulo, em 2 de Julho de 1916 e faleceu em Salvador, a 17 de Maio de 2008. Conhecida como escritora, fotógrafa e memorialista ficou, igualmente, conhecida por ter sido casada (cinquenta e seis anos) casada com Jorge Amado.


Ernest Hemingway nasceu em Illinois, a 21 de Julho 1899 e faleceu em Idaho, a 2 de Julho 1961. Este escritor trabalhou como correspondente de guerra em Madrid durante a Guerra Civil Espanhola e a experiência inspirou uma de suas maiores obras, "Por Quem os Sinos Dobram". Ao fim da Segunda Guerra Mundial se instalou em Cuba. A sua vida foi muito turbulenta; casou quatro vezes, além de vários relacionamentos românticos. Em 1952 publica "O Velho e o Mar" ( considerada a sua obra-prima), com o qual ganhou o prémio Pulitzer (1953) e em 1954 recebeu o prémio Nobel de Literatura.

Vladimir Nabokov nasceu em
São Petersburgo, a 22 de Abril de 1899 e faleceu em Montreux, Suíça, a 2 de Julho de 1977. Entre muitas obras célebre ficou o seu polémico romance, datado de 1955, “Lolita”.

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no
Porto, a 6 de Novembro de 1919 e faleceu em Lisboa, a 2 de Julho de 2004. Foi provavelmente a maior poetisa portuguesa do século XX. Foi a primeira mulher portuguesa a receber o mais importante galardão literário da Língua Portuguesa, o Prémio Camões, em 1999. Em 2003 foi distinguida com o Prémio Rainha Sofia.
Na Poesia Sophia destacou-se, mas também se distinguiu como contista deixando-nos o maravilhoso "
Contos Exemplares". Da sua extensa produção infantil destacam-se: "A Menina do Mar", "O Cavaleiro da Dinamarca", "A Floresta", "O Rapaz de Bronze", "A Fada Oriana"...

(José Amaral)

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Poema


ocaso

O entardecer crepusculino
trazia-me uma paz de espírito,
que nem sei bem
como explicar.
Debaixo de uma araucária,
lendo um livro,
vislumbrava
uma araneífera roseira.
Um pavão macho,
de bela plumagem,
levantava em leque
a cauda
e parecia refrescar-me
a leitura.
E era assim que,
dia-após-dia,
o crepúsculo da vida
- aterrador -
se fazia anunciar.



(in “Oráculo Luminar”, José Amaral)

domingo, 22 de junho de 2008

Ao Verão


Amapolas


Amigo…

En el cielo,
donde crecen
amapolas centellantes
como perlas,
la noche empieza a desnudarse.

Al ponerse el sol
todas las aves
cantan melodías en sus nidos.

Vosotros quedáis solitarios!

Tinieblas soñadoras
por entre las nubes
guardan en su corazón
las claras mañanas.

Cuando renace la aurora
las amapolas,
que a la brisa ondean,
sueñan con suaves besitos
del rocío
e
vosotros quedáis solitarios
entre las hojas de hierba
de los campos.


(in "Outonalidades", José Amaral)

sábado, 21 de junho de 2008

Eu gosto é do Verão...

Hoje, 21 de Junho, começa o Verão (chamado solstício de Verão). Isto é, hoje é o dia mais longo do ano e a noite é menor. Porquê? Porque em astronomia, solstício é o momento em que o Sol, durante o seu movimento aparente na esfera celeste, se afasta mais da terra.
O engraçado da questão é que no
hemisfério norte o solstício de Verão ocorre no dia 21 de Junho, e o solstício de Inverno ocorre no dia 21 de Dezembro. Em contraponto, no hemisfério sul é o contrário.
Com o Verão é necessário haver muito mais cuidado com o Sol. E, numa altura em que tanto se fala de cancro é necessário protegermo-nos.
A todos um Verão risonho!...

(José Amaral)

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Multifacetado

Francisco Buarque de Hollanda, mais conhecido como Chico Buarque nasceu no Rio de Janeiro, a 19 de Junho de 1944. É um dos mais afamados músicos, dramaturgos brasileiros. Como escritor ainda não conseguiu o estrelato. O seu livro “Budapeste” (que já li) não foi muito aclamado pela crítica, embora tenha ganho o Prémio Jabuti. A sua Ópera do malandro é conhecida mundialmente. Tive a oportunidade de vê-la, há dois anos, no Coliseu do Porto e é realmente um espectáculo fabuloso. A sua poesia também ganha força através das suas músicas. Aqui fica um exemplo:

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar

Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não mal disse a vida tanto quanto seu jeito de sempre falar
E não deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar

Então ela se fez bonita como a muito tempo nào queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tando esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para praça e começaram a se abraçar

E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz


(José Amaral)

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Eugénio

Eugénio de Andrade (pseudónimo de José Fontinhas Rato) nasceu na freguesia de Póvoa de Atalaia (Fundão) a 19 de Janeiro de 1923 e faleceu no Porto a 13 de Junho de 2005 (após doença prolongada). Viveu em Lisboa, Coimbra e Porto. Travou amizade com muitas personalidades da cultura portuguesa: Miguel Torga, Carlos Oliveira, Eduardo Lourenço, Sophia de Mello Breyner Andresen, Teixeira de Pascoaes, Vitorino Nemésio, Jorge de Sena, Mário Cesariny… Eugénio era pouco dado a aparições públicas e vivia distanciado da chamada vida social. Aqui fica um belíssimo poema de Eugénio:

AS AMORAS

O meu país sabe as amoras bravas
no verão.
Ninguém ignora que não é grande,
nem inteligente, nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce
de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez
nem goste dele, mas quando um amigo
me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos,
reparo que também no meu país o céu é azul.


(José Amaral)

120 anos de Pessoa

Fernando Pessoa nasceu em Lisboa, a 13 de Junho de 1888 e faleceu também na capital portuguesa a 30 de Novembro de 1935. É considerado um dos maiores poetas de língua portuguesa. Na literatura desdobrou-se em várias outras personalidades conhecidas como heterónimos. A figura enigmática em que se tornou movimenta grande parte dos estudos sobre sua vida e obra, além do fato de ser o maior autor da heteronímia. Este ano comemoram-se os 120 anos do seu nascimento. Aqui fica um dos mais conhecidos poemas de Pessoa:


Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira a entreter a razão,
Esse comboio de corda
que se chama o coração.


(José Amaral)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Poesia para o fim-de-semana

Konstantin Dmitrievich Balmont nasceu a 15 de Junho de 1867 e faleceu a 24 de Dezembro de 1942. Este poeta foi uma das maiores figuras da Idade de Prata da Poesia Russa.
Infelizmente não consegui um poema deste autor em Português, mas este italiano compreende-se.


IO VENNI AL MONDO PER VEDERE IL SOLE
Io venni al mondo per vedere il sole
e gli azzurri orizzonti.
Io venni al mondo per vedere il sole
e i bianchi monti.
Io venni al mondo per vedere il mare
e il verde oro del piano.
Più mondi in uno sguardo io so serrare:
sono un sovrano.
Io vinsi lo squallore dell'oblio
col mio incanto.
In me si cela eternamente un dio
e sempre canto.
Svegliato fu il mio sogno dal dolore
e in terra mi ama ognuno.
Chi pari m'è nelle virtù canore?
Alcuno, alcuno!
Io venni al mondo per vedere il sole
e all'imbrunire
io canterò… Io canterò del sole
nell'ora di morire.


Mihail Eminescu nasceu em Botoşani, a 15 de Janeiro de 1850 e faleceu em Bucareste, a 15 de Junho de 1889. Foi o mais importante e conhecido poeta da literatura romena.
Escreveu muito e graças a
Iacob Negruzzi, publicou os seus primeiros versos na revista Junimea. Foi por algum tempo actor, inspector de escolas e bibliotecário em Iaşi, onde conheceu Veronica Micle, sua inspiradora, e seu grande amor.


Foram-se os anos ...

Foram-se os anos como as nuvens vão
E nunca mais retornarão um dia;
Já não me encantam hoje, como então,
Lendas e doinas*, sons da fantasia

Que à mente de um menino foram graças
Mal compreendidas, cheias de um alarde –
Com tuas sombras hoje em vão me abraças,
Ó hora do mistério, ao fim da tarde.

Para arrancar um som do meu passado,
Para fazer-te, ó alma, ainda vibrar,
A mão em vão a lira tem tocado.

Perdeu-se tudo na alba do lirismo,
Calou-se a voz do outrora sublimado,
O tempo cresce em mim... e eu me abismo!

(* Doina: canção popular entranhável e melancólica, a mais viva expressão da alma romena, segundo o poeta Vasile Alecsandri. Tradução: Luciano Maia)


(José Amaral)

terça-feira, 10 de junho de 2008

Queres fiado...

A 12 de Junho de 1875 (n’A Lanterna Mágica) Rafael Bordalo Pinheiro “dava à luz” o Zé Povinho, personagem de crítica social adoptada como personificação nacional portuguesa.
Tem como característica principal o gesto do manguito (por vezes acompanhado da frase “Queres fiado, toma!”), representando a sua faceta de revolta e insolência. O Zé Povinho (como se deduz) refere-se ao povo português, criticando de uma forma humorística muitos dos problemas sociais e políticos da sociedade portuguesa. Além disso, é uma caricatura do povo português na sua característica de eterna revolta perante o abandono e esquecimento da classe política, embora pouco ou nada fazendo para alterar a situação.
Nos dias que correm, conturbados e de agitação, é necessário descruzar os braços e mostrar a revolta que nos vai na alma. Quiçá, seja necessário, também, fazer o manguito como forma de protesto.

(José Amaral)

domingo, 8 de junho de 2008

O Prazer da leitura...

Mais uma sugestão de leitura e novamente de um escritor português de renome: Ramalho Ortigão. A obra, ainda da colecção Grandes Autores Portugueses (colecção 120 anos JN), desta feita é Histórias Cor-de-rosa. Também desta vez lamento a letra miudinha de um saboroso livrinho de 79 páginas. São pequenas, mas deliciosas histórias escritas num estilo muito sóbrio donde se destaca o sentido crítico do autor, bem como o austerismo e ao mesmo tempo a delicadeza da escrita de Ramalho.
Ramalho Ortigão nasceu no Porto onde viveu com sua avó materna, depois de frequentar o curso de direito, que não completou, dedicando-se ao jornalismo. Envolveu-se na “Questão Coimbrã” e acabou a enfrentar Antero de Quental num duelo de espadas, devido à sua ligação profissional com o romantismo que dominava as letras. Contudo, mais tarde veio a ser uma das principais figuras da “Geração de 70”. Construiu uma sólida amizade com Eça de Queirós.

(José Amaral)

terça-feira, 3 de junho de 2008

Feira do Livro - Porto - 2008

No dia 7 de Junho de 2008, pelas 21:00 horas, estarei presente na Feira do Livro do Porto (a convite da Papiro Editora) num "Encontro de Poetas". É sempre uma oportunidade para rever amigos e para adquirir alguns livros a preços mais convidativos.
A todos os visitantes/amigos do Ad Litteram que queiram e possam estar presentes aqui fica o meu convite. Muito me honraria a vossa presença.
Apareçam e tragam um amigo!

(José Amaral)

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Poema

Negra

Naquela pueril
face negra
aqueles
dois olhos grandes,
brancos,
lembram
os pólos
imaculadamente pacíficos.

O sorriso,
branco,
daquela pueril
face negra
lembra
a inocência
desta criança
que sorri
à pobreza
e às armas.

(in “Outonalidades”, José Amaral)

domingo, 1 de junho de 2008

"Menina e Moça"

Menos tempo disponível, e mais trabalho acrescido, não é sinónimo de não-leitura. Desta feita acabei de ler Menina e Moça, romance de Bernardim Ribeiro (Colecção 120 anos JN, 95 pág.). Esta edição tem a particularidade de estar escrita com o Português à época de Bernardim (século XV? – antes de 1557?), e só é pena estar grafado com uma letra muito miudinha.
Estamos na presença de uma obra, incompleta, de índole sentimental. A natureza aparece como “culpada” do estado de alma. Nesta obra encontramos uma comum nostalgia amorosa e o fatalismo do sofrimento (ex. Aónia e Bimuarder, Arima e Avalor), bem como constantes desencontros amorosos.
Vale a pena ler esta obra (fundamentalmente destinada a alunos do ensino secundário), pois trata-se de uma perturbante e enigmática obra.

(José Amaral)

sábado, 31 de maio de 2008

DIA MUNDIAL DA CRIANÇA

Festeja-se anualmente a 1 de Junho (pelo menos em Portugal) o Dia Mundial da Criança.
Muitos países comemoram o dia das Crianças a 20 de Novembro, data que a ONU (Organização das Nações Unidas) reconhece como dia Universal das Crianças por ser quando se comemora a aprovação da Declaração dos Direitos das Crianças.
Como dizia o poeta “o melhor do mundo são as crianças”. A todas as crianças do mundo um Feliz Dia da Criança!


"Qualquer criança me desperta dois sentimentos: ternura pelo que ela é e respeito pelo que poderá vir a ser." (Pasteur)
"Eduquem as crianças e não será preciso castigar os homens." (
Pitágoras)
"Cada criança chega-nos com uma mensagem de que Deus ainda não se esqueceu dos homens."
(Tagore)
"Quando eu tinha 15 anos sabia desenhar como Rafael, mas precisei uma vida inteira para aprender a desenhar como as crianças"
(Picasso)
"A alma das crianças é um espelho em que se retrata a natureza." (
Cícero)
"É vergonhoso insultar uma criança. Ela tem sentimentos, tem sua pequena dignidade e como não pode se defender com isso, é sem dúvida um ato ignóbil ferir tais sentimentos." (
Mark Twain)

(José Amaral)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Espectáculo dantesco

Dante Alighieri nasceu em Florença, em Maio ou Junho de 1265 e faleceu em Ravena, a 13 ou 14 de Setembro de 1321. Viveu a primeira parte da sua vida na sua cidade natal, antes de ser, injustamente, exilado. Foi um escritor, poeta (considerado o primeiro e mais importante poeta da língua italiana) e político italiano. Da sua vastíssima obra a mais conhecida é sem dúvida La Divina Commedia (“A Divina Comédia”).Esta obra descreve uma viagem de Dante através do Inferno, do Purgatório, e do Paraíso, primeiramente guiado pelo poeta romano Virgílio, autor do poema épico Eneida, através do Inferno e do Purgatório e, depois, no Paraíso, pela mão da sua amada Beatriz. O Purgatório é considerado, dos três livros, o mais lírico e humano. O poema chama-se "Comédia" não por ser engraçado mas porque termina bem (no Paraíso). Era esse o sentido original da palavra Comédia, em contraste com a Tragédia, que terminava, em princípio, mal para os personagens.

INFERNO


CANTO I (trecho inicial)

No meio do caminho desta vida
me vi perdido numa selva escura,
solitário, sem sol e sem saída.

Ah, como armar no ar uma figura
desta selva selvagem, dura, forte,
que, só de eu a pensar, me desfigura?

É quase tão amargo como a morte;
mas para expor o bem que encontrei,
outros dados darei da minha sorte.

Não me recordo ao certo como entrei,
tomado de uma sonolência estranha,
quando a vera vereda abandonei.

Sei que cheguei ao pé de uma montanha,
lá onde aquele vale se extinguia,
que me deixara em solidão tamanha,

e vi que o ombro do monte aparecia
vestido já dos raios do planeta
que a toda gente pela estrada guia.

Então a angústia se calou, secreta,
lá no lago do peito onde imergira
a noite que tomou minha alma inquieta;


e como náufrago, depois que aspira
o ar, abraçado à areia, redivivo,
vira-se ao mar e longamente mira,

o meu ânimo, ainda fugitivo,
voltou a contemplar aquele espaço
que nunca ultrapassou um homem vivo.

(...)


Tradução: Augusto de Campos

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Homenagem

O Bombeiro é um profissional/voluntário que possui treino adequado para apagar incêndios, resgatar pessoas em situação de perigo, salvaguardar bens materiais e ajudar e fornecer assistência nos desastres naturais e nos causados pelo homem. Em geral são profissionais que têm grande prestígio junto do público, nomeadamente o infantil, pois são vistos como heróis. Em Portugal, os bombeiros são popularmente conhecidos como Soldados da Paz. Há quatro tipos de Corpos de Bombeiros em Portugal: Profissionais (mais conhecidos por Sapadores), Voluntários, Militares e Privativos. A estes acrescem, ainda, os corpos mistos, compostos por Voluntários e Profissionais, denominados Bombeiros Municipais.
Hoje, 26 de Maio, comemora-se o Dia Nacional do Bombeiro. Estes homens e mulheres que, muitas vezes, arriscam a própria vida merecem o nosso respeito e a nossa homenagem.

(José Amaral)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Poeta russo

Joseph Brodsky nasceu a 24 de Maio de 1940 e faleceu a 28 de Janeiro de 1996. Este poeta russo foi vencedor do Prémio Nobel de Literatura em 1987.

XIII

Deveria dizer-te adeus
como a um dia que termina?
As memórias humanas podem esmorecer
tornar-se ténues e cair
como o cabelo.
O problema é
que atrás das suas costas não estão
camas de casal para amantes,
sono difícil, o passado,
ou dias em filas apertadas
de costas retesadas - mas, antes,
nuvens enormes, de borboletas,
volteando juntas.

Joseph Brodsky

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Sugestão de Leitura

Acabei de reler (a primeira vez que li já lá vão muitos anos) o livro Os Meus Amores de Trindade Coelho (Colecção 120 Anos JN, 190 pág.). É um livro de contos rurais editado em 1891. Para muitos é a principal obra do autor. Neste belíssimo livro encontramos um conjunto de histórias que evocam de forma saudosista a vida do campo, a recriação de gentes e lugares, motivada pela saudade, e velhas recordações de infância do mundo transmontano onde o autor cresceu. É uma obra-prima na forma como se apresenta ao leitor, permitindo-lhe desfrutar da mais refinada literatura. Os contos remetem-nos para evocações e quadros descritos com espontaneidade e simplicidade, compreensível a todos. Um toque de suave lirismo reforça-lhes o encanto e uma utilização da linguagem popular, em diálogos vivos, confere-lhe algum realismo. Nele encontramos contos como “A choca”, “Parábola dos sete vimes”, “Abyssus Abyssum”, “Para a Escola”…
Quantas e quantas vezes os nossos escritores ficam esquecidos, merecendo melhor sorte. Este livro vale a pena lê-lo e saboreá-lo. Aconselho-o vivamente!

(José Amaral)

sábado, 17 de maio de 2008

Poema para o fim-de-semana

Poema do fecho-éclair

Filipe II tinha um colar de oiro,
tinha um colar de oiro
com pedras rubis.
Cingia a cintura com cinto de oiro,
com fivela de oiro,
olho de perdiz.

Comia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.

Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.

Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.

Na mesa do canto
vermelho damasco,
e a tíbia de um santo
guardada num frasco.

Foi dono da Terra,
foi senhor do Mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safiras, topázios,
rubis, ametistas.
Tinha tudo, tudo,
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.

O que ele não tinha
era um fecho-éclair.

(António Gedeão)

quarta-feira, 14 de maio de 2008

2º ANIVERSÁRIO

No dia 12 de Maio de 2008 o Ad Litteram fez dois anos.!
Os muitos afazeres fizeram-me deixar passar, ligeiramente, a data. Faço um "mea culpa", qual pai desnaturado, pelo esquecimento que, evidentemente, não foi propositado.
A todos aqueles, e foram muitos, que ao longo destes dois anos visitaram (comentando ou não) o meu blog um sincero obrigado.

(José Amaral)

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Manuel Alegre nasceu em Águeda, a 12 de Maio de 1936. Este poeta esteve exilado na Argélia durante o período Estado Novo. É membro destacado do Partido Socialista português, partido do qual foi fundador e Vice-Presidente.
Estudou
Direito na Universidade de Coimbra. Desde muito cedo demonstrou os seus ideais políticos. Destaca-se sobretudo a sua obra poética.
Recebeu numerosos prémios literários e o
Prémio Pessoa em 1999.
Aqui fica um poema da autoria de Manuel Alegre:


Canção tão simples

Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?

Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?

Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?

Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?


(José Amaral)

domingo, 11 de maio de 2008

Surreal

Salvador Dalí nasceu em Figueres, a 11 de Maio de 1904, e aí faleceu a 23 de Janeiro de 1989. Este pintor catalão é o nome maior do Surrealismo. O seu trabalho chama a atenção pela incrível combinação de imagens bizarras, como nos sonhos, com excelente qualidade plástica.
Salvador Dalí era um excêntrico. Tinha uma reconhecida tendência por atitudes e realizações extravagantes destinadas a chamar a atenção, o que por vezes aborrecia aqueles que apreciavam a sua
arte, ao mesmo tempo que incomodava os seus críticos.

(José Amaral)
(Imagens retiradas da Internet)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Sonhos...

Nesta Primavera que tarda em deixar de se travestir de Outono-Verão-Inverno nada melhor que mais uma sugestão de leitura. Volto a um autor que já aqui referi (Kafka à Beira-Mar e Em busca do Carneiro Selvagem) Haruki Murakami.
Desta feita a obra A Rapariga que Inventou um Sonho (Casa das Letras, 424 pág.) encontramos os vinte e quatro melhores contos de Murakami. A fantasia confunde-se com a realidade. Contos com um homem de gelo, um macaco ou corvos como personagens principais, não são vulgares… há personagens com perdas dolorosas… Há uma marca entre as histórias: melancólicas; as personagens também têm algo em comum: a solidão. Neste livro Murakami volta aos seus temas favoritos: o jazz, os pássaros, os gatos… Os contos são interessantes e prendem-nos do princípio ao fim.
Enquanto esta Primavera não se decide, vale a pena ler este belo livro.

(José Amaral)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Poema


Faz-me o favor...

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor - muito melhor!
Do que tu. Não digas nada.
Sê Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

(Mário Cesariny)

terça-feira, 6 de maio de 2008

Campanha PIRILAMPO MÁGICO 2008

A Federação Nacional de CERCI'S FENACERCI, vai lançar mais uma Campanha Pirilampo Mágico que irá decorrer entre 9 de Maio a 1 de Junho com o apoio da R.D.P. Antena 1.
Esta iniciativa, para além de constituir um meio de recolha de fundos que visa obviar às dificuldades financeiras com que muitas das Instituições se debatem, tem subjacente a sensibilização da Comunidade em geral para a problemática do cidadão deficiente mental e o papel interveniente que a todos cabe no processo da sua integração social e profissional.
Para que estes objectivos se alcancem, necessário se torna assegurar a colaboração com entidades de diversas áreas de que algum modo, possam cooperar neste esforço de tentar construir uma realidade diferente para o deficiente mental, onde palavras como solidariedade e oportunidade tenham, de facto, um verdadeiro significado.

(Fonte: Federação Nacional de CERCIS FENACERCI)
(José Amaral)

segunda-feira, 5 de maio de 2008

"Homem Nobre"

Rabíndranáth Thákhur, mais conhecido por Tagore (que em sânscrito quer dizer “homem nobre”), nasceu em Calcutá, a 6 de Maio de 1861 e faleceu também em Calcutá, a 7 de Agosto de 1941. Este escritor, poeta e músico indiano, com formação filosófica, cria uma escola dedicada ao ensino das culturas e filosofias ocidentais e orientais. Sua obra poética compreende uma colecção de três mil poemas em língua bengali sobre temas religiosos, políticos e sociais. Em 1913 vence o Prémio Nobel da Literatura. Para Tagore “O homem só ensina bem o que para ele tem poesia”.


Poema de Despedida

É hora de partir, meus irmãos, minhas irmãs
Eu já devolvi as chaves da minha porta
E desisto de qualquer direito à minha casa.
Fomos vizinhos durante muito tempo
E recebi mais do que pude dar.
Agora vai raiando o dia
E a lâmpada que iluminava o meu canto escuro
Apagou-se.
Veio a intimação e estou pronto para a minha jornada.
Não indaguem sobre o que levo comigo.
Sigo de mãos vazias e o coração confiante.

Rabindranath Tagore
(José Amaral)

Simplicidade

Mario Quintana nasceu em Alegrete, a 30 de Julho de 1906 e faleceu em Porto Alegre, a 5 de Maio de 1994. Este poeta, tradutor e jornalista brasileiro é considerado o poeta das coisas simples e com um estilo marcado pela ironia, profundidade e perfeição técnica.

AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...
Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira
-em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida
-acaso lhes indaga que horas são...

Mario Quintana - A Cor do Invisível
(José Amaral)

sábado, 3 de maio de 2008

DIA DA MÃE

Poema à mãe
No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...

Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."

Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...

Boa noite. Eu vou com as aves!


(Eugénio de Andrade)[ Em Portugal, até há alguns anos atrás, o dia da mãe era comemorado a 8 de Dezembro, mas actualmente o Dia da Mãe é no 1º Domingo de Maio, em homenagem a Maria. ]
(José Amaral)

«Vazio»

Faz hoje (03MAI08) um ano que Madeleine McCann desapareceu da Praia da luz. O desaparecimento desta menina loirinha, com um traço único que a torna inconfundível (uma mancha no olho direito) foi notícia. Por todo o mundo se falou de Maddie, muito se disse, muitas hipóteses se levantaram - algumas assustadoras -, mas a menina ainda não apareceu... Vem isto a propósito para relatar uma daquelas coincidências. Ontem entre as 23 e a 01 da manhã estive a ver (em DVD) o filme português Alice.
Entre outros o filme conta com interpretações de qualidade de Nuno Lopes, Beatriz Batarda, Miguel Guilherme. O filme começa quando já se passaram 193 dias desde que Alice foi vista pela última vez. Todos os dias Mário, o pai, que neste filme assume o papel de elo mais forte do casal, sai de casa e repete o mesmo percurso que fez no dia em que a filha desapareceu. A mãe acredita na justiça, mas aos poucos vai perdendo essa fé e a hipótese de encontrar a filha. A obsessão de encontrar a filha, aliada à esperança que acalenta em encontrá-la, leva Mário a instalar uma série de câmaras de vídeo que registam o movimento das ruas. No meio de todos aqueles rostos, daquela multidão anónima, que cruza as ruas de Lisboa, Mário procura uma pista, uma ajuda, um sinal...
Quer no filme, quer na realidade a dor brutal causada pela ausência de Alice/qualquer filho desaparecido é assustadora; pelo olhar do realizador podemos aperceber-nos como é a vida de quem “perde” um filho… Este pai, assim como muitos espalhados pelo mundo, tudo fez para encontrar a filha.
Vale a pena ver este filme, pois faz-nos reflectir, faz-nos sentir pequenos perante uma tragédia.

(José Amaral)